Fidelidade: Há 200 anos a segurar o futuro

“Uma marca de futuro com 200 anos de passado”. É assim que a Fidelidade se apresenta ao público, depois de mais de 200 anos de história. No currículo da terceira seguradora mais antiga do mundo estão peças resgatadas do fundo do mar. O incêndio do Chiado motivou a maior indemnização paga pela seguradora em Portugal.

No mesmo ano em que as forças de Napoleão invadem a Península Ibéria e a Família Real foge para o Brasil, nasce em Portugal a primeira seguradora, sob a égide “Depois da tempestade vem a Bonança”. Vinte e sete anos mais tarde, em 1835, aparece a Fidelidade, que no ano passado – após a fusão da Fidelidade Mundial e da Império Bonança -,acabou por dar nome ao grupo. Quando surgiu estava virada para os riscos marítimos, incêndios e seguro de vida – foi pioneira nesta última área.

Desde então a marca, que foi reunindo mais de 50 seguradoras, tem investido na “fusão do passado com o futuro”. O administrador da empresa, José Alvarez Quintero, explica a sua sobrevivência: “Saber adaptar-se às necessidades da sociedade e fazê-lo honrando as suas obrigações”, escreveu no lançamento da marca única, no ano passado. “Ter sobrevivido a invasões, revoluções, guerras civis e duas guerras mundiais, ter progredido nos tempos bons e menos bons, diz muito da sua capacidade de adaptação.”

Da primeira apólice de um seguro de incêndio de uma propriedade de casas em Alcântara, feita a 30 de setembro de 1808, até à escultura de um cão recuperada do lixo, muitas são as peças que contam a história da companhia. Mas a mais extraordinária talvez seja a da faca de mato feita pelo artista Rafael Zacarias da Costa.

Faca de mato recuperada do Cadiz, navio que naufragou em 1875

Faca de mato recuperada do Cadiz, navio que naufragou em 1875

Em 1875, a peça de joalharia de prata seguia a bordo do Cadiz, para ser vendida em Londres. Estava segurada em 700 libras. O navio naufragou e a Fidelidade teve de indemnizar o proprietário em 31 500 réis. Mas acabou mesmo por conseguir recuperá-la do fundo do mar. Hoje faz parte do seu espólio.
Avançando mais de um século, 1988 voltaria a ser um ano marcante para a Fidelidade. O incêndio do Chiado foi a notícia do ano. Para o público em geral, a 25 de agosto as chamas destruíram 40 estabelecimentos comerciais. Para a Fidelidade esse trágico acontecimento significou o pagamento de mais de 750 mil contos (3,7 milhões de euros).

Incêndio do Chiado levou a seguradora a pagar a maior indemnização de sempre: 3,7 milhões de euros

Incêndio do Chiado levou a seguradora a pagar a maior indemnização de sempre: 3,7 milhões de euros

Juntando na sua carteira de clientes algumas das maiores empresas nacionais – TAP, ANA, Sonae, Delta Cafés, PT ou REN -, a Fidelidade salvaguarda ainda algumas das mais emblemáticas obras. Da Casa da Música ao Terreiro do Paço, passando pela barragem do Alqueva e o Estádio do Braga. Da lista de clientes mais antigos contam-se a Real Companhia Vinícola, desde 1850, ou a Estação do Rossio, segurada desde 1891.

Mas não é só nos negócios que a seguradora foi ganhando o seu espaço. Ao longo da sua história, indissociavelmente ligada à do País, foi sendo citada por autores como Camilo Castelo Branco ou Joaquim Paço de Arcos. Além das citações externas, os fundadores fizeram também questão de se ligarem ao mundo das artes. O conde de Farrobo, Joaquim Pedro Quintela, foi administrador da Bonança entre 1838 e 1853 e diretor do São Carlos (construído num terreno doado pela família) entre 1839 e 1840. É também obra sua a construção do Teatro das Laranjeiras – atual Teatro Thalia – e que ardeu em 1862, acidente na altura indemnizado pela Bonança. A companhia tem investido também numa coleção de arte portuguesa que inclui obras de Manuel Cargaleiro e João Cutileiro.

ANA BELA FERREIRA

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