As festas do tricentenário da morte de Camões

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: A 10 de junho de 1880 assinalou-se em Lisboa o tricentenário da morte de Luís de Camões, numa atmosfera marcada pela ascensão das ideias republicanas. A comissão organizadora é formada por figuras desta corrente e o programa das cerimónias segue o mesmo cunho. O poeta torna-se símbolo político.

Não houve “em Lisboa uma única desordem” relacionada com as festas do centenário em que mais de 150 mil pessoas estiveram nas ruas, escreve o DN

Não houve “em Lisboa uma única desordem” relacionada com as festas do centenário em que mais de 150 mil pessoas estiveram nas ruas, escreve o DN

“Mil foguetes lançados do castello de S. Jorge annunciaram às fortalezas e navios o desfilar do cortejo, e a hora da salva com que elle era festejado”, escrevia o DN na sua edição de 12 de junho de 1880, um “sábbado” na grafia corrente na época, a que se cinge este texto nas respetivas citações. O jornal regista com apreciável destaque que “não houve em Lisboa uma única desordem occasionada pelas festas do centenário, em que se acumularam nas ruas para mais de cento e cincoenta mil pessoas” para assinalar os três séculos do desaparecimento do poeta Luís de Camões.

A razão de a notícia das cerimónias só ter sido publicada a 12 deve-se ao facto de ter sido sido feriado o dia das comemorações, não havendo, pois, edição no dia seguinte.

Assim, é a 12 que o jornal, à época vendido por “10 réis”, relata como decorreu o cortejo comemorativo, cujo “delírio do enthusiasmo foi levantado á sua maior altura durante a passagem dos nossos honrados companheiros do trabalho: os typographos. Em muitos olhos vimos as lagrimas da (sic) enternecimento e de alegria que só os corações bons e sensibilisadores podem experimentar em lances tão solemnes”.

Então com quatro páginas, o DN assegura que a “pátria de Camões ergueu o seu vulto magestoso, tocado de uma luz eterna, perante as nações da Europa” e, precisamente, como “homenagem” ao poeta, prossegue o texto, “fora determinado no programa que o primeiro facto inicial da união da imprensa perante o ideal dos progressos da pátria (…) seria a fundação solemne da associação dos jornalistas e escriptores portuguezes”. Segue-se então a descrição do cortejo entre o Chiado e a “praça do Commercio”, com as “corporações (…) reunindo a pouco e pouco na grande praça, e sem grande esforço e intelligentemente tomando os logares designados no programma e na planta”. Antes deste decorrera o significativo momento de colocação de uma coroa de flores junto da estátua do poeta, ostentando a “seguinte legenda: A Camões – Os estudantes em 1880”.

Detalhe curioso, na edição de 10, o Diário de Notícias publica uma carta do poeta – ele mesmo – em que este se lamenta de não ter notícias “d’essa terra” e escreve que “d’ante mão vos pago com novas d’esta, que não serão más no fundo de uma arca para aviso de alguns aventureiros que cuidam que todo o mato é oregãos e não sabem que cá e lá más fadas ha.” No texto d’outre-tombe , Camões escreve em termos lúgubres, ou não fosse o momento de decadência nacional, sobre “essa terra” da qual partiu “como quem o fazia para o outro mundo”, deixando para trás “quantas esperanças”, que se revelaram enganadoras, e um quadro em que “não ficasse pedra sobre pedra.”

De volta à edição de 12 de junho, o jornal regista com destaque todas as associações presentes no cortejo e todas as manifestações de congratulações e mensagens recebidas a propósito das comemorações. Entre elas, uma carta do escritor Victor Hugo.

ABEL COELHO DE MORAIS

Deixe o seu comentário