Padaria das Trinas: Uma referência na arte de fabricar o pão, no berço de Portugal

O cheiro a pão quente e o calor que emana dos fogões a lenha “aconchegam” a alma quando se entra no número 23 da Rua das Trinas em Guimarães. Aqui, funciona desde 1881 a Padaria das Trinas, empresa familiar que não pertencendo à família fundadora, está nas mãos de Jesualdo Cunha e de Joaquim Ribeiro, dois antigos funcionários que fazem questão de a manter a tradição e confecionar o pão manualmente, cozendo-o em forno de lenha

O pão, a pastelaria, em particular os croissants de receita francesa, o doce de ovos e o pão-de-ló são as especialidades da centenária Padaria das Trinas, instalada num edifício também ele centenário, que se mantém quase intacto desde o primeiro dia em que a empresa abriu portas, há 133 anos. Nesta padaria, alia-se a tradição à arte de bem saber fazer pão e a qualidade e o cliente são as principais preocupações das cerca de 45 pessoas que aqui trabalham diariamente.

Joaquim Ribeiro e Jesualdo Cunha, ex-funcionários, são os sócios-gerentes

Joaquim Ribeiro e Jesualdo Cunha, ex-funcionários, são os sócios-gerentes

Fundada por Amélia Mendes Fernandes e José Martinho Fernandes, a empresa passou por três gerações da família até chegar às mãos de Maria Antonina Mendes Pinto Fernandes. Foi sob a chefia desta que Jesualdo Cunha começou a trabalhar para a empresa. Apesar de não ser da família, afirma que sempre foi tratado “como um filho” e tem uma ligação de mais de meio século à casa. “Trabalho aqui há 53 anos. Comecei a trabalhar a contar pão, com 11 anos, ao mesmo tempo que frequentava a escola profissional, onde fazia formação comercial. Depois fui padeiro, empregado de escritório, fiz de tudo um pouco”, referiu o homem que há dez anos recebeu como herança a Padaria das Trinas.

Tem ainda um outro sócio gerente, também ele antigo funcionário da empresa, Joaquim Ribeiro. Maria Eduarda Mendes Pinto Fernandes Milhão, descendente da família fundadora da Padaria das Trinas, é a terceira sócia.

Foi a padaria que deu o nome à rua em que hoje está instalada no número 23. Chamava-se 5 de Outubro até há cerca de 30 ano. A fama do pão-de-ló da Padaria das Trinas levou a que numa alteração toponímica se mudasse o nome desta rua, situada intramuros no centro histórico da cidade berço de Portugal.

É o pão-de-ló, famoso por ser confecionado com ovos caseiros, que traz pessoas de todo o Portugal até Guimarães, à padaria onde nasceu também o conhecido pão saloio cujo segredo está no tempo de descanso da massa, “à moda de antigamente”. “A massa tem que descansar muito tempo para que o pão fique bom”, referiu Jesualdo Cunha, que ainda não perdeu o jeito e continua a amassar e cozer o pão sempre que necessário.

Foi a padaria que deu o nome à rua em que hoje está instalada no número 23

Foi a padaria que deu o nome à rua em que hoje está instalada no número 23

Quando Jesualdo Cunha chegou à Padaria das Trinas esta tinha 14 funcionários; atualmente são 45. Aqui são produzidos diariamente mais de 30 mil pães e cerca de 10 mil bolos, noventa por cento dos quais para revenda, sendo a empresa responsável pelo fornecimento de pão à maioria das instituições do distrito de Braga. “Procurei sempre ir atrás de novos clientes. É fundamental. É preciso visitar os clientes, perceber as suas necessidades, criar um elo de ligação com estes”, declarou Jesualdo Cunha, que é quem desempenha esta função, numa perspetiva de proximidade e de fidelização de clientes. “Atualmente temos uma carteira com mais de três centenas de clientes”, acrescentou.

A Padaria das Trinas tem um volume de faturação elevado, tendo expandido o negócio há cerca de 15 anos para o número 20 desta mesma rua, com um serviço de take-away, essencialmente com comida tradicional portuguesa.
“Esta é uma parte importante pois complementa o serviço da padaria”, afirmou Jesualdo Cunha, destacando as papas de sarrabulho, o arroz de pato, o bacalhau com natas e com broa e o cozido à portuguesa como especialidades do serviço.

Jesualdo Cunha tem consigo na empresa uma das suas duas filhas, Ana Maria Cunha. Espera que esta dê continuidade, juntamente com os descendentes dos outros sócios, ao trabalho desenvolvido até então pela Padaria das Trinas, perpetuando o nome da empresa.

Para já, o percurso será o mesmo de até então, sem perspetivas de alargar o negócio a outras localidades e mantendo a qualidade a que habituaram os clientes. “Com tudo aqui concentrado, conseguimos controlar e assegurar melhor a qualidade dos nossos produtos”, referiu Jesualdo Cunha, destacando o facto de se privilegiar a qualidade, mantendo o método de fabrico artesanal, que lhes tem valido a distinção de empresa PME Excelência e o reconhecimento junto de diversas entidades e instituições.

Relativamente ao futuro, a empresa tem na gaveta um projeto para criação de uma espécie de “Museu do Pão”, “uma ambição, um sonho nosso”, frisou Jesualdo Cunha, acrescentando que gostaria de tornar a sua empresa num espaço privilegiado de lazer, onde as pessoas pudessem tomar contacto com a arte de fazer o pão.

Mónica Ferreira

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