Casa Ramos Pinto: Casa de um pintor que tornou o vinho em obras de arte

Adriano Ramos Pinto viu no Brasil a terra prometida para o mercado dos vinhos e em 1880 fundou a casa com o seu nome. Conquistou Vera Cruz com o vinho de qualidade engarrafado em verdadeiras obras de arte. Pintor, levou o marketing da empresa a outro patamar e cimentou a marca como uma das mais criativas no Portugal do início do século XX.

Adriano Ramos Pinto, fundador da empresa, no seu escritório

Adriano Ramos Pinto, fundador da empresa, no seu escritório

Foi pelas mãos de um pintor que a Ramos Pinto se tornou uma referência entre as empresas portuguesas de Vinho do Porto. Adriano, que fundou a casa em 1880, era discípulo do escultor Soares dos Reis e usou toda a sua criatividade e traço próprio para desenvolver o marketing e conquistar o mercado brasileiro. O sucesso foi tanto que por muitos anos, naquele país tropical, quem queria um cálice do vinho duriense, levantava o braço e exclamava: “Era um Adriano, por favor.”

“In Hoc Signo Vinces” é a frase latina que encabeça cada garrafa do vinho Ramos Pinto. “Com este signo vencerás” foi o mote que guiou a empresa fundada em Vila Nova de Gaia em 134 anos de vida desde que o fundador, Adriano, decidiu envolver-se no negócio do Vinho do Porto que fazia sucesso no Brasil. No final do século XIX, dividia o seu tempo entre a Academia Portuense de Belas Artes e o emprego como guarda-livros na Sandeman, empresa produtora e exportadora de Vinho do Porto.

Foi precisamente esse acesso privilegiado às finanças da empresa que fez Adriano perceber o excelente negócio que era a exportação de vinhos para o mercado brasileiro. Quis fundar a sua própria empresa e fê-lo em 1880. Acabou por conquistar espaço e no início do século XX tornou-se responsável por metade do vinho exportado para terras de Vera Cruz. “Como estudante de Belas Artes, viajou pela Europa e chegou a viver em Paris. Por isso teve sempre cuidado com a imagem dos seus produtos, criando um marketing em volta da Ramos Pinto que foi uma revolução fantástica. No Brasil, principal mercado, vendia o vinho três vezes mais caro e mesmo assim conquistou o mercado”, conta João Nicolau de Almeida, atual administrador-delegado da Casa Ramos Pinto. Tornaram-se icónicas as publicidades associadas à marca, verdadeiros quadros de inspiração renascentista e Art Déco.

Casa Ramos Pinto está situada desde 1909 no cais de Gaia, com vista para o Douro.

Casa Ramos Pinto está situada desde 1909 no cais de Gaia, com vista para o Douro.

“Desde início Adriano Ramos Pinto quis atingir a maior qualidade nos vinhos e em vez de fazer o vinho comprando uvas às quintas do Douro, comprou quintas para ter produção própria e, dessa forma, controlar a qualidade e garantir a consistência desde a uva à garrafa e à embalagem. A qualidade faz-se, mas o mais difícil é mantê-la”, explica o administrador-delegado que também é enólogo e responsável pela produção vinícola.

Atualmente a casa Ramos Pinto possui quatro quintas na zona do Douro Vinhateiro: Bom Retiro, Urtiga, Bons Ares e Ervamoira, que ocupam cerca de 360 hectares na região.
Foi precisamente nesta última quinta que a Ramos Pinto decidiu, em meados dos anos 1970, dar outro passo e desenvolver um vinho de mesa da região do Douro. “Naquela época só havia vinhos correntes produzidos por quintas privadas e em pequena escala. Apliquei os meus conhecimentos, dividi castas e fizemos mais uma revolução em Portugal com a produção em grande escala de vinho de mesa duriense”, explica João Nicolau de Almeida.
Em 1990 os vinhos de mesa começaram a ser comercializados, após a integração da Casa Ramos Pinto no grupo francês Roederer, especializados em champanhe. Em 1992 a produção integrou também o vinho branco. Atualmente todos os vinhos Ramos Pinto aliam à tradição a modernidade, com 20% das uvas ainda a serem pisadas em lagares. Toda a produção é biológica e além do Brasil, os mercados francês, norte-americano e angolano são os maiores importadores.

A parceria com a Roederer permitiu aos vinhos da Ramos Pintos serem líderes dentro do canal Horeca (hotéis,

O vinho é guardado, armazenado na cave do mesmo edifício onde funcionam os escritório e o museu

O vinho é guardado, armazenado na cave do mesmo edifício onde funcionam os escritório e o museu

restaurantes e cafés) em França, sempre com a qualidade do néctar e da embalagens garantida à partida. As artes, trazidas por Adriano Ramos Pinto, são ainda um dos pontos fulcrais desta casa. “Ainda hoje em dia temos protocolos com a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, para o desenvolvimento de novos designs para a empresa. Além disso, nos cursos daquela faculdade todos os anos está incluído uma visita às caves da Ramos Pinto para observar a arte dos cartazes e embalagens”, conta o administrador. Pormenor que remete para um slogan antigo da empresa: “Vinhos Ramos Pinto, até para pintar são bons.”

Bruno Abreu

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