Como se perde um fortim com 280 anos em África

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: Na primeira página de 2 de agosto de 1961, o jornal destacava o heroísmo dos dois portugueses que, mesmo desarmados, resistiram aos militares do Daomé (hoje Benim), deitando fogo a uma fortaleza que depois de ser feitoria e entreposto esclavagista já só tinha um valor simbólico. Hoje, existe lá um museu

Antepassado dos “De Souza” do Benim e não só. Francisco de Souza nasceu no Brasil, mas foi como escrivão ao serviço de Portugal que se instalou em S. João Batista de Ajudá. Traficante de escravos, morreu em 1849, deixando quase cem filhos.

Antepassado dos “De Souza” do Benim e não só. Francisco de Souza nasceu no Brasil, mas foi como escrivão ao serviço de Portugal que se instalou em S. João Batista de Ajudá. Traficante de escravos, morreu em 1849, deixando quase cem filhos.

Desarmados e sozinhos contra os ventos da história, Agostinho Borges e Meneses Alves deitaram fogo à fortaleza. Como titulava o DN de 2 de agosto de 1961, “deixou de existir S. João Baptista de Ajudá onde flutuava há 280 anos a bandeira portuguesa”. Independente de França desde o ano anterior, o Daomé (hoje Benim) quis acabar com o último vestígio colonial e “forças militares avançaram por entre as chamas e arrastaram para fora os dois portugueses”. Sem demoras, o residente e o adjunto foram levados até à fronteira com a Nigéria. “Um país sem história a roubar a história de um povo”, concluiu o jornal,  linguagem natural na época em que a ideologia defendia que Portugal ia do Minho a Timor.

Foi um ano terrível para o regime de Salazar. Antes da queda da fortaleza no Daomé, já em Angola tinha começado a sublevação armada. Aliás, na edição onde se fala da “atitude covarde e mesquinha do governo do Daomé”, surge em destaque também, sob o antetítulo de “A situação em Angola”, a notícia de  “o núcleo de bandoleiros envolvido na bolsa de Nambuagongo não tem quaisquer possibilidades de escapar ao cerco do exército”. Uns meses depois, a 18 de dezembro, era a vez de a Índia invadir Goa e após 36 horas de batalha pôr fim a 450 anos de soberania portuguesa. O império tremia, conseguiria ainda resistir mais de uma década graças a uma guerra em África em três frentes, mas em 1975 já todas as colónias tinham deixado de o ser .

Fortaleza continua bem cuidada. Ouidah é hoje nome de uma pequena cidade do Benim (o antigo Daomé que anexou S. João Baptista de Ajudá). E a fortaleza construída pelos portugueses lá continua, imponente nos seus muros brancos, tendo sido recuperada com ajuda da Fundação Calouste Gulbenkian.

Fortaleza continua bem cuidada. Ouidah é hoje nome de uma pequena cidade do Benim (o antigo Daomé que anexou S. João Baptista de Ajudá). E a fortaleza construída pelos portugueses lá continua, imponente nos seus muros brancos, tendo sido recuperada com ajuda da Fundação Calouste Gulbenkian.

Surge nessa edição do DN um mapa da costa ocidental africana com a localização da fortaleza, assim como várias fotografias onde se testemunha a ligação à história de Portugal, como os túmulos dos “residentes do forte,  mortos de doença ou velhice”. Passado mais de meio século, o fortim foi recuperado com a ajuda da Fundação Gulbenkian e lá funciona um museu. Mas o mais visível legado português no Benim é o apelido De Souza, que é pronunciado como “Dessusa”. São descendentes de Francisco Félix de Sousa, que foi escrivão da fortaleza de S. João Baptista de Ajudá e traficante de escravos graças à aliança com o rei de Abomey, Guezo. Morreu em 1849, mas o mito perdura. Bruce Chatwin inspirou-se nele para o seu O Vice-Rei de Ajudá.

LEONÍDIO PAULO FERREIRA

Uma manchete colonialista. O título principal daprimeira página era “Deixou de existir S. João Baptista de Ajudá”, mas aquilo que revela a dificuldade da época em perceber a libertação dos países africanos é o antetítulo “Um país sem história a roubar a história dum povo”.

Uma manchete colonialista. O título principal daprimeira página era “Deixou de existir S. João Baptista de Ajudá”, mas aquilo que revela a dificuldade da época em perceber a libertação dos países africanos é o antetítulo “Um país sem história a roubar a história dum povo”.

Existem 7 comentários

  1. Mário Liberato

    Com muita tristeza,vejo o “velho Diário de Noticias “redigido por gente sem cultutura nem sentido patriótico.Estão bem para os governos actuais,reles paus-mandados e piores moços-de-recados da estranja.No tempo em que foi director o Saramago,ele não faria pior.

  2. Dr Feelgood

    Só quero deixar aqui o meu apreço a esses valentes Portugueses, raça em extinção, actualmente. E um grande apreço a De Souza por ter contribuído com esses 100 filhos para aprimorar a raça….

  3. ninguém

    Esses dois portugueses poderão não ter sido grandes heróis mas mantiveram-se no seu posto até às últimas consequências. Era assim o dever Patrium. Hoje escarnece-se dessas atitudes. Desgraçado povo que não se respeita…

  4. ANTONIO MARIA SANTOS

    GOA , DAMAO, DIU E S . JOAO BATISTA DE AJUDA FORAM INVADIDAS MILITARMENTE POR POTENCIAS ESTRANGUEIRAS. ANGOLA,MOÇAMBIQUE ,GUINE E TODAS RESTANTES TERRITORIOS ULTRAMARINOS FORAM VENDIDOS A PREÇOS DE SALDO.OS VENDEDORES SAO BEM CONHECIDOS.ESPERE QUE DEUS OS PERDOE AOS QUE JA FORAM E AOS QUE AINDA RESTAM……..

  5. Silvério Marques

    Portugal perdeu a guerra colonial no dia em que se deu o 25 de Abril. As forças armadas portuguesas estavam em debandada na Guiné, Angola e Portugal. Quem dava dinheiro a Portugal para fazer a guerra ( a NATO ) fechou as bolsas do dinheiro e já não dava armas. Na Guiné até misséis terra / ar já havia para abater aviões. A guerra colonial apressou a queda do fascismo e daí a queda do colonialismo. A França e a Inglaterra e outros países da Europa a tempo e horas fizeram a descolonização sem muita luta armada, salvo os casos da Argélia e do Quénia. Nestes dois casos o colonialismo perdeu. Na Africa do Sul o racismo perdeu. Dizer que as colónias foram vendidas é não conhecer a história. Admiro que estes comentadores não tivessem na época saído á rua para lutar a favor do colonialismo e do fascismo.

  6. Benedito Marime

    Mais um dos muitos episódios da saga iconoclasta de Salazar e do seu Estado Novo: a Fortaleza de São João Baptista de Ajudá no Daomé, hoje Benin, era um enclave minúsculo que o novo país africano acedera a manter como marco da passagem portuguesa por aquelas terras, mas sem a soberania territorial diplomaticamente reconhecida que Salazar insistia em querer manter. Fixado um prazo para a evacuação, Salazar mandou queimar o forte, com o que aquele padrão teria desaparecido para sempre, não fosse, nobremente, socorrido pelas forças do Benin. Meses mais tarde, Salazar mandou fazer o mesmo ao Palácio do Hidalcão, em Goa, ao que o General Vassalo e Silva se opôs firmemente. Já com esses precedentes, em Moçambique, na hora da retirada, não poucos colonos também incendiaram e sabotaram propriedades suas, com isso criando, na altura, ressentimentos que podiam ter sido fatais ao futuro relacionamento entre Portugal e Moçambique. Mais uma vez, porém, o bom senso partiu de África e aí estão os PALOP em cordato relacionamento com a antiga metrópole, apesar das bacoradas de alguns frustrados, qu não se cansam de olhar para as independências africanas como um verdadeiro apocalipse!

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