Termas das Caldas da Felgueira: As preciosas águas que conquistaram gerações

Já em 1891 se dizia que tinham “meios de curar ou aliviar padecimentos rebeldes a todas as medicações conhecidas”. As termas das Caldas da Felgueira cativaram gerações e gerações em busca de tratamento, ao longo de 132 anos. E nem um incêndio as extinguiu…

“Deixar sem publicidade as virtudes destas águas é um crime de lesa-humanidade”, diz, assertivo, um relatório do médico João Felício Paes do Amaral, sobre “o melhor e mais completo estabelecimento thermal da Península Ibérica”. A escrita datada não é engano. O documento é de 1891. Mas o seu tema de análise continua atual: mais de um século depois, nas Caldas da Felgueira (próximo de Canas de Senhorim, concelho de Nelas) ainda mora um estabelecimento de referência. “O maior operador privado em Portugal no sector termal”, aponta Adriano Barreto Ramos, diretor geral da estância, composta por termas, hotel e spa.

O balneário foi a primeira construção do estabelecimento termal das Caldas da Felgueira, iniciado em 1882

O balneário foi a primeira construção do estabelecimento termal das Caldas da Felgueira, iniciado em 1882

O relatório “O estabelecimento thermal das Caldas da Felgueira e suas águas medicinaes”, escrito pelo médico da companhia, nos primeiros anos de funcionamento, descreve casos clínicos lá tratados e ajuda a contar os 132 anos de história da estância da Beira Alta. E Adriano Barreto Ramos serve de guia pelos corredores da memória.
Em 1882, nasceu a Companhia das Águas Medicinais das Caldas da Felgueira, “com o objetivo de construir o balneário termal”. E, em 1887, surgiu a Companhia do Grande Hotel Club das Caldas da Felgueira, para “garantir alojamento e dar apoio às termas”. Hoje, termas e hotel são duas empresas com acionistas e gestão comum, detidas pela Patris Capital, e com um volume de negócios anual de dois milhões de euros (em 2013). “Somos das poucas termas em Portugal que estão a trabalhar ininterruptamente desde a fundação”, ressalva o diretor.

Ao longo destes anos, milhares de famílias rumaram à “pequena e encantadora povoação do distrito de Viseu, situada numa eminência, varrida pelos ares da montanha, purificados por pinheiros e outras árvores”, de que João Felício Paes do Amaral falava. Caldas da Felgueira conquistou-as por gerações. “Somos muito procurados por famílias, gente que cá vinha em criança e agora volta”, conta o diretor-geral. E nem um incêndio que destruiu quase totalmente o hotel, no final da época termal de 1963 (“perdeu-se todo o interior, só sobraram as paredes”) afastou os utentes habituais. No verão seguinte, tudo reabriu como novo. E a estância sobreviveu até hoje.

Estância termal tem equipa de 14 médicos e especializou-se no tratamento de doenças das vias respiratórias

Estância termal tem equipa de 14 médicos e especializou-se no tratamento de doenças das vias respiratórias

Adriano Barreto Ramos elenca a “especialização e formação das pessoas” como a “base” desse sucesso, conseguido “sempre uma linha de orientação muito clara e transparente”. Em 1891 dizia-se que as Caldas da Felgueira possuíam “meios de curar ou aliviar padecimentos rebeldes a todas as medicações conhecidas”. E as propriedades medicinais da água parecem manter-se intactas. “Somos das termas com mais variedade de tratamentos em Portugal”, sublinha o diretor, lembrando a especialização em tratamentos de doenças das vias respiratórias (“asmas, bronquites, rinites, sinusites, etc”) e também reumáticas e músculo-esqueléticas.

No centro de tudo estão as “preciosas águas” das termas –  “límpidas, claras, de um leve tom azulado quando vistas por transparência, e de cheiro a ovos chocos”, descrevia o médico da companhia. A estância tem até um laboratório próprio para garantir que a qualidade daquela água sulfúrea sódica, com temperatura constante de 35 graus, se mantém. “Dá-nos para estudá-la e preservá-la, o que é essencial”, diz o diretor. Afinal, é por causa delas que balneário termal, de traços antigos e azulejos coloridos, se enche de pessoas.

Ainda assim, os tratamentos não são tudo. Já no final do século XIX, as direções das termas e do hotel “envidavam os seus melhores esforços para proporcionar aos frequentadores da deliciosa estância termal” outras distrações e diversões “a par dos benefícios das águas, tão justamente recomendadas”. E o esforço continua, com o investimento no serviço de spa – que tanto oferece tratamentos de estética e beleza como programas de bem-estar. Para o futuro, Adriano Barreto Ramos projeta o investimento nessa secção. Mas não esquece a sua vocação: “as termas, o verdadeiro tratamento natural, sem contra-indicações”.

Rui Marques Simões

Existem 2 comentários

  1. Maria Lúcia Abreu

    Amo esse lugar… meu avô trabalhou ai,séc passado. Acabo de chegar de
    Nelas…mas minha intenção agora é passar uns dias ai,estando em Nelas,para relaxar…claro. Parabéns pela preservação. Cordialmente M.L. Abreu ( Brasileira,carioca ). Meus pais do Folhadal.

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