Café Progresso: O mais famoso café de saco da Invicta

O Progresso passou de botequim onde as vendedeiras do Mercado do Anjo tomavam cevada a café dos professores da universidade e daí a ponto de referência para turistas no eixo mais movimentado da ‘movida’ portuense.

Mesmo quando chegaram a Portugal as primeiras máquinas de café expresso, o café de saco continuou a ser uma tradição do Progresso

Mesmo quando chegaram a Portugal as primeiras máquinas de café expresso, o café de saco continuou a ser uma tradição do Progresso

Abriu portas a 24 de setembro de 1899 e nos primeiros tempos era sobretudo conhecido como o botequim que servia café com leite e cevada às vendedeiras que pela manhã passavam para ir trabalhar no Mercado do Anjo (que se realizou entre 1839 e 1952 na Praça de Lisboa, bem defronte da Torre dos Clérigos). Chamaram-lhe Progresso, nome que veio emprestado de um luxuoso café-concerto da Rua de Sá da Bandeira, que acabara de encerrar.

No entanto, durante mais de um século muita coisa mudou neste que é o mais antigo café em funcionamento da cidade do Porto. Os anos passaram e o Progresso passou a ser conhecido como o café dos professores, dos lentes da universidade, dada a proximidade da reitoria, enquanto os alunos concentravam-se sobretudo no não muito distante café “Piolho”. Mais recentemente, ambos passaram a ser pontos de referência para turistas e locais no eixo mais fervilhante da ‘movida’ nortenha.

Apesar das mudanças de público e de designação (em 1963 passou de botequim a café), o estabelecimento manteve até hoje a fama de servir o melhor café de saco, reputação pela qual sempre zelou Mário Santos, proprietário durante décadas. Mesmo quando chegaram a Portugal as primeiras máquinas de café expresso, em meados da década de 1960, o café de saco continuou a ser uma tradição do Progresso.

Hoje, o espaço é frequentado cada vez mais por turistas e jovens

Hoje, o espaço é frequentado cada vez mais por turistas e jovens

“Ainda hoje transformamos uma tonelada de café por ano e dois terços são de café de saco e só o resto é que é ‘cimbalino’. Em nenhum outro estabelecimento existe essa proporção. Desde os tempos do Sr. Mário que fazemos a nossa própria receita de café de saco (uma mistura de grãos verdes e lotes robusta e arábica). Antigamente, o armazenamento e a torrefação eram aqui, mas há cerca de 20 anos cedemos a receita à fábrica Tenco, que passou a produzir este lote especialmente para nós”, explica ao DN Afonso Fernandes, economista de profissão e atual proprietário.

O seu pai trabalhou como chefe de sala do Progresso durante 41 anos e Afonso frequentou o café e tornou-se auxiliar e amigo de Mário Pinto, cuja família foi dona do café desde a sua fundação, até que o comprou em 2003. “Eu tinha uma grande ligação ao Sr. Mário, que era um homem com grande capacidade e uma paixão enorme por isto. Por exemplo, quando ele faleceu, deixou no armazém café que durou para cinco anos…”, recorda Afonso Fernandes, enquanto revela relíquias que herdou do antigo dono e que fazem parte da história do estabelecimento. Há de tudo, desde documentos sobre o racionamento durante a II Guerra Mundial aos livros de contabilidade e receitas de café com as respetivas notas de prova. Muitas fotos também, recortes de jornal e pelo meio aparece um cartão de agradecimento de Américo Thomaz, antigo presidente da república durante o Estado Novo.

A história remonta a 1968 e é simples de contar, diz Afonso Fernandes: “O Sr. Mário soube que estava cá o presidente da república instalado no Hotel Infante Sagres, a dois passos aqui do café, e mandou lá levar-lhe um pacote do nosso lote especial. E ele provou, gostou e mandou um cartão de agradecimento…”

O presidente da república não chegou a visitar o Progresso, mas ao longo dos anos o café não teve falta de clientes ilustres. O ator João Guedes, que hoje dá nome à rua onde fica o café, o maestro Resende Dias ou o poeta Pedro Homem de Melo estavam entre os mais assíduos.

Hoje, o espaço é frequentado cada vez mais por turistas e jovens. Um cenário que Afonso Fernandes não imaginava quando comprou o café há pouco mais de uma década: “Em 2005, fizemos obras e havia clientes que pensavam que íamos encerrar e não largavam a porta. ‘Se fechar isto, fazemos uma manifestação…’, diziam-me… A verdade é que reabrimos e fomos uma pedrada no charco aqui na zona. Servimos de exemplo para muita gente… E depois disso veio um ‘boom’ com a abertura de uma série de espaços.”

Para se diferenciar dos restantes, o Progresso passou a ostentar na frontaria a designação de café mais antigo do Porto, o que atraiu mais público, além dos mais fiéis clientes. Aqueles “que aguentaram o café estes anos todos” e que ao sentarem-se à mesa para pedir um queque e um café de saco sabem que as receitas originais são as do antigo dono Mário Pinto e estão todas apontadas nos livros de receitas que Afonso guarda religiosamente.

Sérgio Pires

Sem comentários

  1. manuel s. faria

    adoro o que em portugal chamam o café do saco,sou imigrante em N.Y. aqui é o normal que todos adoram em por,,tugal não pega é uma pena adoro o expresso mas este tem o seu lugar,parabéns ao progresso se tem essa fama

Deixe o seu comentário