A carga da polícia de choque contra polícias pró-sindicato no Terreiro do Paço

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: O acontecimento que ficaria conhecido como “secos & molhados” ocorreu a 21 de Abril de 1989. A presença de centenas de agentes ligados à Associação Pró-Sindical da PSP junto ao MAI foi considerada ilegal e dada ordem de dispersão com canhões de água, cães e cassetete. Além da manchete, que fala de “manifestação inédita”, o DN do dia seguinte dedicou-lhe três páginas de notícias.

A ação foi  considerada ilegal e dada ordem de dispersão com canhões de água, cães e cassetete

A ação foi considerada ilegal e dada ordem de dispersão com canhões de água, cães e cassetete

A imagem correu mundo: de um lado a polícia de choque, com canhões de água e distribuindo bordoada a eito, do outro colegas fardados a preceito, em cordão, encharcados e revoltados. Era o “polícia bom, polícia mau”, mas desta vez a sério. E poderia tê-lo sido ainda mais: “Lamento que os meus colegas de profissão não ajam com o coração mas como máquinas. Eles são pedras. Queremos fazer isto com brandura, mas se houver mortos eles também morrem.” A ameaça, atribuída a um dos manifestantes pela repórter Leonor Quaresma, ela própria brutalizada  – “A redactora do DN foi agredida e um dos graduados puxou-lhe com violência o gravador, dizendo que lho tirava e que fosse depois buscá-lo ao Comando sem cassete. Uma bastonada seguida de um grosseiro palavrão foi a resposta à resistência da redactora” — , não se concretizou, apesar de o texto garantir que muitos dos agentes pró-sindicato tinham armas à cintura. O título da reportagem, publicada na página 4 do jornal, é precisamente “Manifestantes armados mantiveram cabeça fria – Banho de sangue esteve iminente nos confrontos do Terreiro do Paço.” Um outro dos agredidos explica: “Somos mais dignos do que eles. Lutamos por uma causa justa e estamos armados. Vieram bater-nos, fizeram feridos mas nós não quisemos fazer mortes.”

A ação da policia de choque saldou-se, segundo o DN; em 17 feridos, incluindo agentes mordidos por cães (um dos quais fotografado ao ser levado de maca) e vários civis, alguns deles, de acordo com o reportado pelo DN, pessoas que simplesmente assistiam e em relação às quais a fúria do Corpo de Intervenção terá sido maior, por se “conterem” na repressão dos colegas. Mas as feridas e as humilhações, que incluíram Torres Couto ( “Um polícia que me reconheceu agrediu-me e chamou-me f.. da p… Estou humilhado e ofendido”, declarou ao DN) acabaram por constituir um marco na luta pela legalização dos sindicatos de polícia em Portugal, que viria a ocorrer já no governo de Guterres, eleito em 1995. Cavaco Silva, então primeiro-ministro e que na Autobiografia Política II  (2004) asseguraria ter naquele dia acompanhado a situação em direto com o ministro da Administração Interna, considerando não haver outra hipótese que não a da carga policial, era completamente contra os sindicatos de polícia, posição que reiteraria no mesmo escrito: “Eu sempre achei que era uma questão de Estado, que devia ser encarada com muito cuidado e delicadeza, porque estava em causa a segurança dos portugueses. Receava que uma qualquer imprudência cometida no estatuto da PSP pudesse repercutir-se na GNR, uma força de segurança de natureza militar. Para o Governo, a criação de um sindicato de polícia era totalmente inaceitável, porque implicava o direito à greve e punha em causa a disciplina e eficácia da corporação.” Aliás, os seis elementos da Associção Pró-Sindical da PSP (antepassada da ASPP, Associação Sindical dos Profissionais de Polícia, o principal sindicato de agentes da PSP) que, com o histórico e já desaparecido líder José Carreira à cabeça, entraram no ministério para entregar a moção, saíram de lá presos.

O inusitado da situação, ocorrida a quatro dias da celebração dos 15 anos do 25 de abril, foi o ângulo escolhido na manchete, ela própria inusitada no mau português: “Polícia contra polícias fardados protagonizam manifestação inédita.”

 O acontecimento ficou conhecido como “secos & molhados”

O acontecimento ficou conhecido como “secos e molhados”

No texto de primeira página, faz-se o enquadramento: “Nada fazia ontem prever que um desfile de polícias fardados e à paisana, a caminho do Ministério da Administração Interna para entregar uma moção, culminasse em confrontos violentos entre elementos de uma mesma corporação.” E explica que, após uma reunião na Voz do Operário em que tinham estado presentes os coordenadores das duas centrais sindicais, então Carvalho da Silva (CGTP) e Torres Couto (UGT) e na qual fora aprovada uma moção, o desfile de polícias (cerca de mil segundo o DN) seguiu para a Praça do Comércio, onde recebeu ordem para dispersar por se tratar, segundo o Comando da PSP e o ministro da tutela, Silveira Godinho (e também o então PM, Cavaco Silva, igualmente citado pelo DN), de “uma manifestação ilegal” – o Comando falava mesmo de “desordeiros”.
Em nenhuma das declarações transcritas, como aliás em parte alguma dos textos, se dá conta de duas informações relevantes: desde 1974 que a lei que regula as manifestações proíbe a participação de pessoas armadas e o estatuto das polícias (como das Forças Armadas) não admite uso de farda neste tipo de acontecimentos. 24 anos depois, em novembro de 2013, o porte de arma por agentes policiais que se manifestavam em frente à Assembleia da República seria invocado pela Direção da PSP para justificar o facto de não ter sido dada ordem de dispersão ao Corpo de Intervenção. Os manifestantes acabariam por invadir a escadaria do parlamento.

FERNANDA CÂNCIO

Sem comentários

  1. Dr Feelgood

    Dentro da tristeza da escalada komunóide que criou mais de uma dezena de sindicatos SÓ na PSP, este espisódio foi lindo de se ver. Infelizmente não teve um final feliz, como hoje se constata. Interessante a comparação com Dezembro/13, Dona Câncias, para quando a abertura do seu caishote aos comentários da plebe?

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