Ourivesaria Sarmento: Vender ouro na rua dele há 144 anos

Do lado direito do Elevador de Santa Justa, a Ourivesaria Sarmento, fundada em 1870, é uma das resistentes do negócio na artéria que tomou dos ourives o nome de Áurea e da qual o proprietário, trineto de um dos fundadores, planeia fazer a história.

Em quase 150 anos de vida da ourivesaria, naturalmente o tipo de oferta e de procura foi mudando

Em quase 150 anos de vida da ourivesaria, naturalmente o tipo de oferta e de procura foi mudando

Wenceslau Sarmento devia ser muito jovem quando foi trabalhar para a ourivesaria que hoje ostenta o seu nome. Isto se, como contam os descendentes, ali entrou em 1870, data também indicada como a da fundação. É que Wenceslau, segundo o seu trineto Rodrigo, hoje com o pai proprietário do estabelecimento, morreu em 1956 – e entre as duas datas contam-se 86 anos. Aluno (de novo a fonte é o trineto) da Real Casa Pia de Lisboa, criada em 1780 para educar órfãos e “recuperar pelo trabalho mendigos e vadios” (se Dickens fosse português, teria iniciado entre as suas paredes a história de Oliver Twist, publicada em 1838), numa época em que as crianças menos abonadas pela sorte eram postas a trabalhar mal andavam, terá Wenceslau entrado ainda menino na casa que haveria de ostentar o seu nome e que durante muito tempo teve oficina própria? Seja como for, terá acabado por se tornar sócio, com um tal de Rebelo, do negócio. E pela morte do outro ficou único proprietário, adotando a ourivesaria o nome que traz até hoje.
“Um nome demora muito a fazer”, comenta Rodrigo Sarmento, 49 anos. “Mas há um estudo que diz que a maioria das lojas e negócios de família não dura mais que até à terceira geração.” A ourivesaria Sarmento vai na quarta. Qual o segredo? “É fruto de um trabalho muito árduo, de não querer nunca dar um passo mais longo que o que devemos, ter os pés bem firmes na terra. Porque passar de cavalo para burro é muito fácil, o contrário é que não.” Ainda assim, foi em 2009, já em plena crise, que decidiu transformar a loja. “Foi um investimento, tínhamos de chamar mais gente. Alterámos o espaço para criar uma zona de exposições de jovens criadores. Começámos em 2010. Temos um joalheiro e um artista plástico de dois em dois meses. Há imensa gente nova com muito talento, mas têm muita dificuldade em montar oficina e em investir nos materiais nobres, pelo que muitas vezes usam materiais mais pobres. E comercializamos aqui as peças.”

A ourivesaria situa-se junto ao elevador de santa Justa

A ourivesaria situa-se junto ao elevador de santa Justa

Com “a sorte de estar mesmo ao lado de um dos ex libris de Lisboa, num lugar onde passa muita gente”, a loja tem atestado o reviver da Baixa pombalina. E outra coisa: “Quando fecharam a rua ao trânsito, no verão passado, para arranjar o piso, estávamos pessimistas, mas as vendas tiveram um acréscimo substancial. Sou um defensor da diminuição do trânsito e não percebo os meus colegas lojistas que acham que haver carros a passar é bom para o negócio. Parece que acham que as pessoas veem montras de dentro do automóvel e depois vêm comprar noutro dia.” Ri.  “Todas as grandes cidades europeias têm limitação de trânsito no centro, nas zonas comerciais, e é assim que deve ser. Isto até há pouco tempo era uma via rápida, as pessoas nem podiam mandar parar um táxi.”
Em quase 150 anos de vida da ourivesaria, naturalmente o tipo de oferta e de procura foi mudando. “Tenho ainda clientes que se gabam de ter conhecido as cinco gerações da família Sarmento, pessoas de noventa e muitos anos. Mas à medida que os clientes mais antigos vão desaparecendo foi preciso evoluir. Cada vez mais o público procura marcas e moda. Vendem-se mais essas peças que aquelas de investimento, embora ainda sejamos muito fortes nas baixelas e ainda haja gente que mantém a tradição de oferecer às crianças todos os anos peças de faqueiro de prata.” Para procurar corresponder à procura na vertente moda apostou numa marca catalã, da ilha de Formentera, com um design depurado, de que é o representante único em Lisboa. “Tem muito sucesso, mas nota-se que a procura de ouro e prata decresceu nos últimos anos. As pessoas retraem-se. De cada vez que há más notícias nota-se logo.” Outro fator negativo, na perspetiva de Rodrigo Sarmento, foi o aumento das rendas que ocorreu em 2013. “Tornou as coisas mais difíceis.”
Verdadeiro negócio de família – Rodrigo está todos os dias na loja e duas das irmãs também lá trabalham – manterá a ourivesaria Sarmento para a próxima geração o apelo que teve para a de Rodrigo, que desde “muito novinho” começou a ir para lá tempo “ajudar”? “Eu não digo nada aos meus filhos [o mais velho tem 16 anos] porque primeiro quero que acabem os estudos, que se formem com boas notas, em princípio no estrangeiro. Se conseguirmos dar conta do recado de manter a loja e apostar no caminho certo talvez venham a seguir as pegadas da família. Mas é difícil porque esta juventude atual tem outras ambições, como ir para fora trabalhar, sair daqui, e acho bem.”

Está pensado o lançamento de um livro sobre a ourivesaria

Está pensado o lançamento de um livro sobre a ourivesaria

Afinal, nem toda a gente se apaixona pela ourivesaria como Rodrigo, que além de negociante é avaliador oficial e refere as “coisas muito boas e bonitas que já me passaram pelas mãos” como um dos aspetos da atividade profissional que mais lhe agradam. E que, tendo planeado escrever um livro sobre a sua loja, foi colecionando, em incursões em alfarrabistas, um espólio sobre o negócio de ourives que já lhe permitiu montar “um pequeno museu que é único” e transformar o projeto numa visão mais global. “Tenho em mente a publicação de um livro sobre ourivesaria. Aqui na rua Áurea, por exemplo, havia muitas. Antes do terramoto as coisas eram mais misturadas, depois é que se decidiu dividir as ruas por misteres. Tenho a documentação sobre quantas existiam. E uma coisa interessante é que antigamente não era toda a gente que fundava ourivesarias. Havia uma disciplina e um rigor que se foi perdendo ao longo do tempo.  Não iam para ourives de manufatura e de venda pessoas que não eram recomendadas e examinadas por uma comissão.”

FERNANDA CÂNCIO

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