O devastador terramoto de 1909

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: A 23 de abril de 1909 a terra tremeu. Com uma magnitude estimada de 6,7 graus na escala de Richter o terramoto atingiu principalmente Benavente, Samora Correia e Santo Estevão.

“Não se registam muitos desastres pessoaes, mas são innumeros os prejuizos materiaes – As autoridades tomam providencias immediatas e nas ruas apparecem rapidamente os socorros do corpo de bombeiros, e a guarda municipal e a policia para defeza dos edificios publicos e das propriedades particulares – O tremor de terra faz-se sentir em todo o paiz, mas sem consequencias graves – El-rei e o sr. infante D. Affonso percorrem a parte baixa da cidade”.

A notícia publicada, no dia 24 de abril, e que ocupa metade da primeira página do DN, ainda ignora o drama que se vivia em Benavente. Neste sábado, os relatos são sobretudo sobre Lisboa. O longo texto sobre o acontecimento, que prossegue na página dois, é pontuado com destaques informativos que ilustram os momentos mais importantes.

Pormenor de uma imagem publicada na capa do Diário de Notícias

Pormenor de uma imagem publicada na capa do Diário de Notícias

“Na Esperança Santos e Alcântara nestes bairros muito populosos, o terror foi enorme, concentradose o povo nos largos, em grandes clamores”, “Na Baixa grandes correrias pelas ruas – gritos e desmaios – o incendio na rua dos Douradouros ainda provocou maior panico”, “Nos terremotos, Cascalheira e immediações muitas casas em perigo de aluir – uma população miseravel”, “Em Alfama varias edificações com estragos – prejuizos importantes”, “No parlamento um panico enorme – das galerias da camara dos pares as senhoras fogem espavoridas e na sala alguns deputados são bastante pisados – a sessão prosegue a pedido dos srs. Alpoim e Vilhena”, “Na Graça e Limoeiro panico na egreja – muitas senhoras de idade feridas”, “No Bairro Alto os populares, espavoridos, fogem para os jardins do Principe Real, de S Pedro de Alcantara e de Santa Catarina. Na Santa Casa e no recolhimento de S Pedro de Alcantara é enorme o panico”, “A rainha no paço da Ajuda, a senhora D. Amélia, vinda de cintra vae immeditamente visitar a rainha d: Maria Pia”.

Na página dois o DN relata o que se passou no país. E surgem pequenas notícias sobre 32 localidades afectadas. O texto publicado sobre Benavente é do correspondente de Santarém que resume a história em poucas palavras. “Pediam socorro”, escreveu.

No domingo, 25 de abril, a machete do DN revela o drama. “Quatro povoações em ruinas”. O texto que se lhe segue explica a tragédia. “Uma derrocada pavorosa em Benavente, onde havia cerca de 900 propriedades, não deixa uma só casa habítavel; a população acampa nos largos e praças, tendo muita gente figido para os acmpos, em Samora Correia e Santo Estevão, do concelho de Benavente, foram também grandes as derrocadas, estando a população tomada de pavor; em Salvaterra são muitas as casas destruidas e na sua maioria teem as paredes fendidas, estando, por isso, inhabítaveis”.

O “Grande Tremor” tinha provocado “37 mortos e muitos feridos”. Os deputados tinham aprovarado um crédito de “100.000$00 réis para occorrer aos desastres produzidos” e “o rei, o senhor D. Affonso e os srs. ministros das obras publicas e da marinha” tinham visitado “as povoações arrazadas”.

Na segunda-feira, na primeira página do DN são publicadas cinco ilustrações da tragédia. A dimensão do “Grande Tremor” é devastadora: “Duas povoações destruidas, 46 mortos e 38 feridos, cerca de sete mil pessoas sem casa e sem pão”. A “catastrophe de sexta-feira” regista ainda uma dúvida expressa na primeira página do Diário de Notícias. “Samora e Benavente resurgirão?”.

A reportagem que ocupa a primeira e segunda páginas do DN sobre a “morte e a desolação” da “terrivel scena” conta que no dia anterior, por ser domingo, “grande numero de pessoas resolveu aproveitar o dia de hontem para visitar os locaes onde o cataclysmo produziu mais terriveis e effeitos”.

ARTUR CASSIANO

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