O mais antigo museu público do País de braços abertos para o futuro

Nasceu em 1833 – por decreto de D. Pedro IV, que resistiu no Porto ao cerco absolutista – como Museu Portuense de Pinturas e Estampas, destinado a recolher os bens confiscados aos conventos abandonados da cidade. Com 60 mil visitantes estimados até fim deste ano, o Museu Nacional Soares dos Reis procura abrir-se cada vez mais à sociedade e garantir um futuro à altura dos seus 180 anos de história.

Fachada principal do Museu Nacional Soares dos Reis, na Rua D. Manuel II, onde desemboca o polémico túnel de Ceuta

Fachada principal do Museu Nacional Soares dos Reis, na Rua D. Manuel II, onde desemboca o polémico túnel de Ceuta

Numa tarde de chuva, uma mãe procura em passo apressado abrigo na galeria comercial que dá acesso ao consultório do pediatra da filha. Já ali foi várias vezes, mas quase nunca parou para reparar no imponente edifício do outro lado da rua. “Nem sei, deve pertencer ainda ao hospital (Santo António, ali perto), se calhar, não?” Mais documentado está Ian, um inglês trazido pela vaga das companhias aéreas low-cost que revolucionou a cidade do Porto. À entrada do Museu Nacional Soares dos Reis, sabe que vai visitar “um dos principais museus da cidade”, ver “importantes obras de um famoso escultor português”, revela especial curiosidade pelos famosos “biombos Namban japoneses” que fazem parte da coleção de mobiliário e leu até que este palácio “foi importante na altura das invasões francesas”.
Foi-o de facto. No sala de jantar deste Palácio dos Carrancas deu-se mesmo um dos episódios mais simbólicos desse período e que virou uma das “anedotas” da libertação da cidade do Porto em relação às tropas de Napoleão, quando em maio de 1809 o general francês Soult, que estava instalado no Palácio, teve de fugir à pressa perante a chegada das forças inglesas, deixando na mesa o almoço que já lhe tinha sido servido e que acabou por ser comido pelo general Wellington.
De resto, o Palácio dos Carrancas, imponente edifício neoclássico construído a partir de 1795, sempre foi um local de eleição. De Soult, de Wellington, de D. Pedro IV,, aquando do cerco do Porto e da guerra fratricida entre liberais e absolutistas, e da família real, que o adquiriu em 1861, nos tempos de D. Pedro V.
O Museu Nacional Soares dos Reis só se instalou aqui em 1940, quando o Estado comprou o edifício à Santa Casa da Misericórdia – à qual tinha sido deixado em testamento por D. Manuel, o último rei. Antes disso, sob égide do liberalismo de D. Pedro IV, nasceu, em 1833, no Convento de Santo António, em São Lázaro (onde hoje funciona a Biblioteca Municipal), como Museu Portuense de Pinturas e Estampas, o primeiro museu público nacional de arte em Portugal. E ganhou o nome do patrono Soares dos Reis com a República, em 1911, numa homenagem ao escultor gaiense que se suicidara em 1889 por achar “a vida, nestas condições, insuportável”.

 

Esculturas de referência na obra de Soares dos Reis: O Desterrado e a Viscondessa de Vinhó e Almedina. Aqui numa exposição datada de 1947

Esculturas de referência na obra de Soares dos Reis: O Desterrado e a Viscondessa de Vinhó e Almedina. Aqui numa exposição datada de 1947

Desde que se instalou no Palácio dos Carrancas, o Museu Soares dos Reis sofreu apenas mais uma intervenção no seu espaço físico, com o plano de remodelação e expansão do edifício projetado pelo aquiteto Fernando Távora, que começou a ser executado em 1992 e terminou a tempo do Porto Capital da Cultura, em 2001.
Ao longo dos últimos 180 anos, o museu tem, portanto, cuidado da história, do património e das memórias da cidade do Porto (e não só). É parte já indissociável da sua herança cultural. Do Soares dos Reis, de resto, saiu também o “embrião do atual Museu de Arte Contemporânea, em Serralves”, lembra a diretora, Maria João Vasconcelos, recordando a criação do Centro de Arte Contemporânea do Museu Soares dos Reis após o 25 de abril de 1974, sob a direção de Fernando Pernes, que depois seria o primeiro diretor artístico da Fundação de Serralves, já na década de 1980. Enfim, a importância histórica do MNSR na vida cultural portuense é, pois, insuspeita. E isso tem sido também reconhecido pelo público, comprovam os números – 18 mil visitantes em 2005, cerca de 60 mil estimados este ano.
Mas há ainda quem o ignore, claro. O estigma clássico em relação à arte – o de um mundo hermético, fechado, distante ao comum dos mortais – vai-se diluindo, mas ainda persiste. E esse é um desafio permanente para quem está intramuros deste Palácio imponente, tão imponente que pode repelir tanto quanto atrair quem o olha de fora.
“É fatal… quem está de fora e olha para este palácio, é um edifício que impõe respeito. É natural que quem não está habituado a circular por estes sítios sinta alguma reserva em entrar, abertamente. Mas se forem convidados a entrar, já há um pequeno passo. E depois, se se sentirem em casa e for mais evidente que qualquer um de nós tem um bocado disto – isto é nosso, de todos! -, há um sentimento de pertença que se vai trabalhando. E quando nós gostamos da nossa casa, convidamos os outros”, refere Maria João Vasconcelos, há sete anos à frente do Museu Soares dos Reis, que gosta sempre de lembrar o dia em que resolveu convidar os trabalhadores das polémicas obras do túnel de Ceuta (cuja saída desemboca mesmo em frente à entrada do edifício) a entrar e visitar o Museu, quando procuravam abrigo da chuva. “A partir desse dia acabou a grande tensão que havia entre eles e os funcionários do museu, criada por um conflito que era público e que se arrastou tanto tempo. Eles passaram a compreender e respeitar o que fazemos aqui e nunca mais houve um problema”, conta.

 

Maria João Vasconcelos, a diretora do Museu, na sala de esculturas

Maria João Vasconcelos, a diretora do Museu, na sala de esculturas

“É isso que procuramos fazer”, garante, “abrir o museu às pessoas, à cidade, através de parcerias com diversas entidades”, diz, enquanto guia o DN pelos diversos espaços do museu. Para além da coleção permanente e das exposições temporárias, há o serviço educativo, a investigação, as oficinas… e vias de comunicação cada vez mais alargadas com outras instituições e outras áreas do saber. Como a que está, por exemplo, exposta numa das últimas salas e que nos mostra a capacidade terapêutica da arte, fruto de um protocolo com o hospital Magalhães Lemos [especializado em saúde mental] , “que todas as semanas faz aqui uma oficina com os utentes do serviço de ambulatório, pessoas que estão com depressões e que precisam de uma atividade manual, artística”.
Num ano em que decorrem ainda as comemorações dos 180 anos do MNSR, estudam-se também as melhores formas de lhe assegurar uma vida saudável durante muitos mais. O “modelo de negócio sustentável” não é chavão que se aplique facilmente para falar do financiamento dos museus. No caso do Soares dos Reis, está prevista para novembro a divulgação dos resultados de um estudo levado a cabo por uma equipa de investigadores da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, liderada pelos professores José Varejão e Helena Santos, que começou por analisar apenas o público e o número de visitantes (de 2000 a 2010) para se alargar depois ao estudo interno da própria organização.
“O que eu proponho há muitos anos – estou aqui há sete anos e esta crise já se adivinhava há muito – é que é importante experimentar modelos, encontrar alguém que possa ter capacidade de nos ajudar a gerir o museu. E é o que acontece com este estudo, foi tudo analisado para tentar encontrar saídas. Não há uma única maneira de fazer as coisas, podem-se tentar vias diferentes”.
No Museu Nacional Soares dos Reis, fundamental tem sido o grupo dos “Amigos do Museu, Círculo Dr. José de Figueiredo”, há muito um “parceiro” na gestão da atividade do museu. “Ainda este ano trouxemos cá o Báculo da Abadessa do Mosteiro de São Bento da Avé Maria do Porto [demolido no final de séc. XIX para dar lugar à atual Estação de São Bento], que está no Museu Nacional de Arte Antiga. As pessoas do Porto nunca o tinham visto. Correu muito bem, foi um sucesso, esteve cá dois meses. Mas a sala onde o colocamos estava um bocado estragada, não tinha infravermelhos para vigilância durante a noite e foi o Grupo dos Amigos que conseguiu organizar-se e dotar a sala de condições. Temos muita sorte, é uma ligação que tem corrido muito bem”, realça Maria João Vasconcelos, salientando que “toda a programação de 2013 e 2014 foi feita com base nas verbas conseguidas pelos Amigos do Museu”. “Isto é quase uma gestão tripartida”, diz, pois a Direção Geral do Património Cultural, que tem a gestão pública do museu, garante o funcionamento básico.
Apesar das dificuldades, os projetos para o futuro perfilam-se. Desde a reformulação da exposição permanente, no próximo ano, até à abertura ao público da vasta área de jardins exteriores do Palácio dos Carrancas, à dinamização da loja através de parcerias com produtores locais, projetos de investigação, protocolos internacionais…
Enfim, “as instituições têm que ter em si mesmas a capacidade de se adaptarem”, aponta a diretora. E o Museu Soares dos Reis já dá provas de o saber fazer há 180 anos.

RUI FRIAS

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