A invasão soviética da Hungria em 1956

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: Em julho de 1956, era afastado Mátyás Rákosi, colocado no poder por Estaline. A 23 de outubro, perante a situação de crise económica, sucedem-se os protestos nas ruas e Imre Nagy é nomeado primeiro-ministro. No final do mês, Nagy anuncia a intenção de abandonar o Pacto de Varsóvia. Era demais para Moscovo

Pouco passava das 04.00 da manhã de 4 de novembro de 1956 quando as forças soviéticas desencadeiam uma vasta operação militar em toda a Hungria, descrita na edição do DN no dia seguinte como a “noite dramática” em que “foi instituída uma ditadura militar” e o país “totalmente” ocupado.

“Numa ofensiva que durou seis horas, as forças armadas soviéticas esmagaram, com inigualável ferocidade, a revolução húngara, ocupando práticamente toda a Hungria”, lê--se no texto da manchete do DN, cuja primeira página era quase toda consagrada à invasão, tema apenas partilhado com a outra grande crise internacional coeva: o desembarque anglo-francês no Suez.

A estátua de Estaline, que fora inaugurada em 1951, é destruída pelos manifestantes a 23 de outubro.

A estátua de Estaline, que fora inaugurada em 1951, é destruída pelos manifestantes a 23 de outubro.

Num segundo grande título, o DN cita as “últimas palavras transmitidas de Budapeste momentos antes da chegada das tropas vermelhas: ‘Vamos ser massacrados! Deus salve as nossas almas!’”. No texto reproduz-se a declaração radiofónica do primeiro-ministro, Imre Nagy, em que este se identifica como “presidente do Conselho da República húngara”. “Levo ao conhecimento do povo húngaro e da opinião pública mundial que as tropas soviéticas atacaram Budapeste no intuito evidente de derrubar o governo democrático húngaro. As nossas forças combatem”, disse.

“Às 5.30, as tropas soviéticas irrompem no centro de Budapeste. Estas tropas compõem-se de blindados e de infantaria. Operam com o apoio de numerosa aviação. (…). Às 07.30, as comunicações telefónicas oficiais com a capital húngara são cortadas. Às 8.10, pela última vez, uma voz se faz ouvir ao microfone de Rádio Kossuth livre: uma voz trémula de mulher lança, em inglês, o apelo dos escritores húngaros ao mundo. Depois seguiu-se o silêncio.”

De madrugada, “tanques húngaros atravessavam as ruas de Budapeste para tomarem posições defensivas logo que se iniciou a luta nos arredores da cidade. Durante todo o tempo o tiro das metralhadoras ecoava através das montanhas em volta da cidade”, e “às 5 horas, iniciava-se nos bairros ocidentais da cidade uma verdadeira batalha” e importantes “batalhas de rua, travavam-se ainda às 10 horas, entre os (sic) tropas soviéticas e jovens revolucionários húngaros, fiéis ao Governo de Imre Nagy”. Mas às “10.45, as tropas soviéticas parecem dominar a situação em Budapeste” e, por volta do meio-dia “procuram apoderar-se das principais localidades da Hungria ocidental, tendo desde sábado fechado sólidamente a fronteira húngaro-austríaca. Às 15 horas (…), soube-se da formação de um governo presidido por Janos Kadar.”

Na edição seguinte, dia 6, escreve-se que “milhares de húngaros abandonaram o país” “através de florestas, por pequenos rios da fronteira (…), a maior parte a pé”. A notícia destaca “a quase total ausência de homens”, que terão ficado “para continuar a lutar”, como se refere a 7: “Os patriotas húngaros continuam a combater heròicamente, apesar da pressão brutal das tropas soviéticas.” Assim farão até final de novembro.

ABEL COELHO DE MORAIS

 

Existem 3 comentários

  1. mmmoi

    O artigo está descontextualizado. Descreve a entrada das tropas soviéticas na Hungria, que se deu a 4 de Novembro! (Que dia é hoje?) Exactamente por esse motivo deveriam ter deixado o artigo em questão para tal mês. O dia 23 de Outubro desse ano não assinala (nem prevê) o ataque soviético, pelo contrário… Foi (é) um dia de atitudes esperançosas por parte de um grupo de estudantes e consequentemente da população húngara. O dia 23 de Outubro marca precisamente o primeiro (real) abalo ao poder russo sobre a Hungria. A primeira vez que o povo húngaro, fez verdadeiramente estremecer a domínio soviético. E de notar que, (apesar da União Soviética ter retomado o controlo em Novembro), foi a partir deste dia que começou verdadeiramente o enfraquecimento e conseguinte queda total da União Soviética na Hungria. Foi o início do fim. Não! Foi o nascimento do fim. Foi o dia em que a Hungria confrontou e deu a primeira facada à União Soviética (e não o dia em que foi invadida por esta!) Respeito para com o rigor histórico! É sobre isso que se deve escrever hoje não acham? Ainda vão a tempo… :)

  2. Testemunha da História

    E o PCP de então apoiou com veemência a invasão da Hungria, em nome da “paz entre os povos”!

    1. Spartacus

      Em 1968, já com direcção de Álvaro Cunhal de pedra e cal, faria isso e muito mais em relação à invasão da Checoslováquia. Aliás, nesse mesmo ano, Cunhal presidiu à Conferência dos Partidos Comunistas da Europa Ocidental.

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