Avenida Palace: Testemunha da História há 122 anos

Havia reis em Portugal quando o Hotel Avenida Palace abriu as suas portas no dia 10 de outubro de 1892, encomendado pela Real Companhia de Caminhos de Ferro. Recebeu refugiados de guerra que chegavam no Sud-Express, reuniões do Secretariado Nacional de Informação e agora a avalanche de turistas que se quer instalar no centro de Lisboa.

O hotel foi remodelado diversas vezes, a última das quais na década de 90

O hotel foi remodelado diversas vezes, a última das quais na década de 90

Tem o típico ar afrancesado como era moda no final do século XIX e quando foi construído tinha uma passagem coberta do Rossio para os Restauradores à boa maneira do George V. Nos primórdios do Avenida Palace saía-se do comboio e havia logo uma porta de entrada para o lobby do hotel do arquiteto José Luís Monteiro.
Uma porta que foi emparedada na década de 50, conta o atual subdiretor, engenheiro Manuel Araújo, que há 45 anos começou a trabalhar nesta casa.

Como as paredes do hotel, remodelado muitas vezes e ainda com um marco de correio à porta, como já (quase) não se vê, o Avenida Palace, viu chegar a República, a I e a II Guerras Mundiais, viu Salazar subir ao poder e cair, recebeu reuniões de membros do secretariado liderado por António Ferro e no dia 25 de abril tinha entre os seus hóspedes vários deputados da Assembleia Constituinte. A seguir, admite Manuel Araújo, “veio uma época complicada”. “Os retornados da ex-colónias foram a prancha de salvação da hotelaria”, diz. Bem diferente dos 80% de taxa de ocupação com que esperam terminar 2014. “A hotelaria de maneira geral está muito bem”. E se antes se instalavam no Avenida Palace senhoras de vestidos compridos acompanhadas de criadas e motorista, hoje “há de tudo”. Um quarto pode custar entre 150 e 400 euros. Têm 82, e 17 suites.

A última vez que o hotel foi remodelado, no final dos anos 90, “gastou-se uma pipa de massa” na construção do salão onde ficava inicialmente a galeria, procurando manter o ar afrancesado que os Caminhos de Ferro desejavam e que é a imagem de marca do hotel que tem sobrevivido aos seus vários donos. Wagonlits, seis famílias portuguesas, “para que se mantenha em mãos nacionais”, em 1919, e a partir de 1964 nas mãos da Soportel, propriedade de quatro famílias e, hoje, dos seus descendentes. A principal característica é quererem sempre manter-se na penumbra, fiéis à máxima de que na hotelaria “a discrição é muito importante”, como diz Manuel Araújo.

Para manter a classificação máxima continuam a manter serviços como bagageiro, concièrge e lavandaria

Para manter a classificação máxima continuam a manter serviços como bagageiro, concièrge e lavandaria

Mandarete nos primeiros dois anos, rececionista depois, subdiretor e, desde há 20 anos, subdiretor geral, Manuel Araújo formou-se em engenharia ao mesmo tempo que atendia clientes e chegou a trabalhar numa fábrica de máquinas ao mesmo tempo. Do hotel nunca saiu. Conhece de cor a história desta unidade onde trabalham mais 72 pessoas e apesar de existir um diretor geral (um dos sócios, já com mais de 80 anos) é ele que está todos os dias nos Restauradores. Viu o marco do correio perder importância para os computadores e para o wi-fi, até os telefones fixos quase deixarem de tocar e as telefonistas deixarem de ser peça-chave na dinâmica do hotel. “Reformaram-se e foram embora”, conta.

Foi a segunda unidade hoteleira de Portugal a receber a categoria de hotel de luxo (a primeira está na Madeira) e mantém hoje as cinco estrelas. Os hóspedes chegam dos EUA, Rússia, Itália, Espanha, França e Alemanha, Brasil e, mais recentemente, da China, à boleia das recomendações na redes sociais e Internet em geral. “É importante responder a toda a gente”, afirma, seguidor atento do que se vai dizendo nos sites da especialidade. Para manter a classificação máxima continuam a manter serviços como bagageiro, concièrge e lavandaria. “Não há nenhum com estas características”, orgulha-se. Só bagageiros são sete. “Não é barato mas é uma maneira de fazer a diferença”, considera. E, publicita, “o nosso pequeno-almoço é muito rico”. O argumento do subdiretor geral é parcial mas sustentado. “Gosto de viajar e conheço outros hotéis, conheci alguns que se assemelham mas o nosso é superior”.

LINA SANTOS

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