Como Gorbachev e Reagan puseram fim à Guerra Fria

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: Faltavam ainda dois anos para a queda do Muro de Berlim, mas o Acordo de Desarmamento assinado em dezembro de 1987 em Washington dava claro sinal de que as duas superpotências decidiam iniciar uma nova era. O enviado do DN assistiu e testemunhou a camaradagem entre os líderes soviético e americano

A cimeira do otimismo. Gorbachev falou de “uma terra liberta dos perigos da guerra” e Reagan de “um sonho comum de paz”. Depois de décadas de Guerra Fria, os líderes da União Soviética e dos Estados Unidos mostravam vontade de construir uma nova relação.

A cimeira do otimismo. Gorbachev falou de “uma terra liberta dos perigos da guerra” e Reagan de “um sonho comum de paz”. Depois de décadas de Guerra Fria, os líderes da União Soviética e dos Estados Unidos mostravam vontade de construir uma nova relação. Após Brejnev, Andropov e Chernenko, três líderes envelhecidos e que morreram todos no espaço de três anos, Mikhail Gorbachev significava um surpreendente jovem de 56 anos. Ronald Reagan era 20 mais velho.

“Num ambiente de pompa e circunstância marcado por discursos de consenso e manifestações de boa disposição que quase subvertiam o protocolo, Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev assinaram ontem um tratado que consagra, pela primeira vez, a eliminação integral de um tipo de armas nucleares”, escreveu Mário Bettencourt Resendes na primeira página do DN de 9 de dezembro de 1987. O enviado a Washington, um jornalista atento aos assuntos americanos, era já então diretor adjunto. E cinco anos depois assumiria a liderança do jornal, cargo que manteve mais de uma década.

A fotografia que surge em destaque mostra Gorbachev e Reagan sorridentes, confirmando que a manchete “acordo de desarmamento torna mundo mais seguro” era mais que simples promessa. É verdade que as duas superpotências mantinham um arsenal nuclear capaz de destruir o planeta (e ainda hoje Rússia e Estados Unidos têm essa capacidade, apesar de todos os acordos sucessivos), mas a Guerra Fria começava a parecer um episódio do passado. Dois anos depois, o Muro de Berlim caía e todas as transformações na Europa de Leste aceleraram.

Amigos até ao fim.  Já ambos ex-presidentes, Gorbachev visitou Reagan no seu rancho californiano em 1992.

Amigos até ao fim. Já ambos ex-presidentes, Gorbachev visitou Reagan no seu rancho californiano em 1992.

Gorbachev, desde 1985 senhor do Kremlin, falou de “uma terra liberta dos perigos da guerra”, enquanto Reagan, na Casa Branca desde 1981, prometia “um sonho comum de paz”, relatou o repórter, que não deixou de reparar no à-vontade com que o líder soviético e o presidente americano conversavam, ambos bem agasalhados, pois se o frio em Washington nunca será comparável ao de Moscovo, o inverno estava quase a começar.

Gorbachev e Reagan já se tinham encontrado noutras cimeiras, como a de Genebra em 1985 e a de Reiquejavique em 1986. Mas foi depois desta reunião que a amizade entre ambos, apesar dos 20 anos de diferença, se consolidou, a ponto de, em 1992, quando nenhum deles era já presidente, o agora cidadão russo ter visitado com a mulher, Raisa, o casal Ronald e Nancy no seu Rancho del Cielo, na Califórnia. E em 2004, Gorbachev, o último líder da União Soviética, não faltou ao funeral do homem que venceu a Guerra Fria e pelo caminho ainda ganhara um amigo.

LEONÍDIO PAULO FERREIRA

 

Sem comentários

  1. Spartacus

    Infelizmente a Rússia voltou a cair na mão dos “gangsters” que já lá mandavam e Gorbachev não é devidamente apreciado nem honrado como merece; felizmente Reagan é respeitado pelos homens e mulheres lúcidos e de boa vontade como um dos maiores presidentes dos EUA e um dos maiores líderes do Mundo Ocidental.

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