Antiga Ervanária: “A gente vai e ela fica”

A mais antiga ervanária de Lisboa nasceu em 1793, no Largo da Anunciada. Após quase 200 anos nas mãos da família do fundador, passou há um quarto de século para as da que foi a sua principal fornecedora de plantas naturais durante décadas.

Isaurinda Paixão, atual proprietária da Antiga Ervanária, acompanha os clientes explicando a função e propriedades dos diferentes produtos que vende

Isaurinda Paixão, atual proprietária da Antiga Ervanária, acompanha os clientes explicando a função e propriedades dos diferentes produtos que vende

Isaurinda Paixão, atual proprietária da Antiga Ervanária situada junto à Praça dos Restauradores, tem um lema: “Um cliente satisfeito traz mais cinco, um insatisfeito leva mais 10.”
“Não dou consultas porque não tenho estudos de química, mas faço aconselhamento ao balcão e não levo nada” por isso, conta a representante da terceira geração da família Américo Duarte Paixão, que no verão de 1990 sucedeu à do fundador da ervanária, Alfredo Augusto Tavares.
Nascida no Vale da Trave (Santarém), zona conhecida como “Terra das Ervanárias”, Isaurinda complementa o acompanhamento aos clientes com outra vertente que revela com um brilho nos olhos: “Gosto de experimentar e faço fórmulas. Junto os diferentes tipos de produtos, depois envio para o laboratório e os técnicos é que sabem dizer quais as quantidades de cada um”, após o que se faz a respetiva certificação.
Exemplos disso são os três chás, identificados por números, que no final da década passada foram acrescentados à coleção de quase quatro dezenas patenteadas ao longo dos dois séculos de vida da empresa e que usam a marca “Antiga Ervanária”. Na origem dessa aposta estavam os pedidos de clientes que há muito procuravam uma solução satisfatória para três maleitas: sinusite, asma e tensão baixa.
“Qualquer pessoa tem o direito de se tratar da forma que quiser”, afirma de forma enfática a dona da bicentenária loja. A dificuldade é que, ao contrário de outros países da UE, os rótulos das embalagens de produtos naturais comercializadas em Portugal não podem indicar os nomes das doenças a que se destinam, nem dos órgãos a tratar. “Se for um produto importado, o rótulo na língua original pode dizer para que é que serve. Mas a inscrição em português não pode incluir essa informação”, lamenta Isaurinda Paixão. “Ao menos que deixassem incluir uma bula na embalagem, mas nem isso”, quando os utentes “têm direito a saber para que servem” esses produtos.

Antiga Ervanária nasceu no Largo da Anunciada, junto à Praça dos Restauradores, em Lisboa, em 1793

Antiga Ervanária nasceu no Largo da Anunciada, junto à Praça dos Restauradores, em Lisboa, em 1793

A Antiga Ervanária da Anunciada, nascida em 1793 como botica no então chamado Passeio Público da capital, passou a explorar o comércio das ervas e plantas medicinais com Alfredo Augusto Tavares, já no século XIX. Após a morte do fundador, em 1880, a viúva, Joaquina dos Santos Pereira, manteve a trajetória ascendente do negócio. “Pelo seu balcão passaram milhares de clientes destacados entre todas as classes sociais. Ricos e pobres sabiam que ali, na “Ervanária do Passeio Público”, estava o remédio para muitos dos padecimentos que diziam, a própria medicina não debelava. Outros até, portadores dos seus próprios males, chegavam ao ponto de se tratarem a eles próprios, embora sob indicação dos proprietários tidos, aliás, no conceito de muito «entendidos». Ponto estratégico de passagem das várias gentes lisboetas, o comércio das plantas medicinais do saudoso comerciante, rapidamente conheceu o êxito da procura e da transação”, refere o site da loja na Internet.
O filho do casal, Alfredo Augusto Tavares, assumiu as rédeas do negócio em 1924. “Deve-se a este comerciante especializado e profundo conhecedor a grande expansão que as plantas medicinais granjearam então”, adianta aquele texto institucional. Em 1938, com a sua morte, sucedeu-lhe a filha, Laura Tavares Rodrigues – de quem Isaurinda Paixão ainda se lembra dos tempos de criança, como se fosse ontem, quando recebia rebuçados peitorais sempre que acompanhava os familiares à loja para entregarem a mercadoria.

 

Com a Antiga Ervanária integrada agora num conjunto de cinco empresas ligadas ao setor, a área da importação e exportação – alecrim, orégãos, poejo, cardo, alcachofra, hipericão, eucalipto – continua a ter um peso significativo no negócio. “Somos fornecedores” para muitos países e, no mercado nacional, para muitos laboratórios que transformam as plantas em suplementos alimentares e também para lojas que as comercializam depois com marcas próprias, explica ainda a proprietária.

MANUEL CARLOS FREIRE

Existem 4 comentários

  1. Artur Ribeiro

    Boa tarde:
    Sou um pequeno produtor de chá Lúcia Lima e de futuro erva príncipe,gostava de saber se estão interessados.
    Tenho neste momento cerca de 20Kg,como sou novo na matéria gostava de saber a como estão a comprar.
    Sem mais por agora.
    Cumprimentos
    Artur Ribeiro

  2. pedro

    Andava a procurar chá de sucupira,
    E cai de costas, ao ler que em Portugal é proibido mencionar na etiqueta de um produto natural para qual doença ele se destina. (Estou no estrangeiro ).

    De que tem medo o governo português? Que as pessoas deixem de comprar os medicamentos ‘normais’, que bastante dinheiro em taxas deve lhes dar?

    Qual é a próxima etapa? Acender uma grande fogueira e queimar a ‘bruxa’ para o povo ver o que acontece quando se fabrica ‘pozinhos’ ?

    uma coisa é certa : quem quer comprar, vai na mesma comprar.

    quando os lobbies dos grupos fármacos comem à mesa com os políticos, acontecem proibições deste tipo. Que vergonha.

    a próxima vez que for a Lisboa, não deixarei de visitar esta ervanária.

    E quem tem Facebook ou Twitter, seria bom enviarem este artigo ao máximo de pessoas que pudessem.

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