Como Amélia Rey-Colaço tinha “raiva” de envelhecer

O DIA EM QUE O DN CONTOU: A “grande dama do teatro português” não hesitou em receber na sua casa do Dafundo a jornalista do DN com quem fala sem rebuços. Aos 85 anos, Amélia Rey-Colaço recorda as glórias e as desilusões do passado, fala dos seus sonhos e projetos. Assume o medo da morte e revela que Eça a ajuda a ultrapassar depressões.

“O teatro tem de ser amado” era o título da  chamada, a uma coluna, na capa do DN naquele domingo de 16 de outubro de 1983. Quase passava despercebida tais os acontecimentos que marcavam a atualidade… Mas para muitos leitores, aquela pequena chamada para duas páginas no interior do jornal tinha uma magia muito especial porque trazia as palavras de uma figura incontornável no teatro português: Amélia Rey-Colaço. Perdão, a Sra. D. Amélia Rey-Colaço.

Alice Vieira entrevista a atriz

Alice Vieira entrevista a atriz

Alice Vieira, que se tornaria ela própria uma escritora conhecida internacionalmente, foi a jornalista que entrevistou, então, a “grande dama do teatro português”. “Foi mais uma conversa”, disse recentemente ao DN, com alguém que “muito admirava”. Durante essa conversa, a jornalista utiliza sempre a expressão “Sra. D. Amélia” porquê? E Alice Vieira explica: “Era assim. Nenhum ator, nenhuma pessoa que tenha convivido com ela a trataria de outra forma. Era só a ela que a tratavam assim, ainda hoje o fazem. Era a grande pessoa do teatro clássico”, explica Alice Vieira, a quem a Sra. D. Amélia tratou, na entrevista, por “minha filha”.

E é nessa cumplicidade que a “senhora do teatro” confessa que “os dias são curtos”, que nunca imaginou que a sua carreira “fosse tão longa” e que sempre se achou “monstruosa” no cinema. Inquirida se tem pena de envelhecer, afirma: “Claro! (…) Eu tenho mais do que pena: tenho raiva! Bom… não é bem raiva, não… Porque, no fundo, nós mulheres somos um contraste pegado…”

Recorda o quão “doloroso” foi ver o Teatro Nacional ser consumido pelas chamas e como o cidadão comum fez questão de lhe dar o seu apoio. Mas, otimista, sacode as recordações menos felizes e conta como tem “um projeto em que me sinto muito empenhada, que é o Museu do Teatro”.

Amélia Rey Colaço, na peça Ciclone, 1932

Amélia Rey Colaço, na peça Ciclone, 1932

A cultura é, para Amélia Rey-Colaço, “um bem que não tem preço (…) Ainda há dias ouvi qualquer coisa na rádio que me deprimiu muito. Então fui ler o Eça (…), e de repente tudo tinha passado, toda a depressão se foi embora.” Esta era a Sra.D. Amélia, para quem Alice Vieira – e outros – olhavam como se tivesse “dois metros de altura”.

LUMENA RAPOSO

Existem 2 comentários

  1. Pato de Borracha

    grande senhora, grande diva do teatro e da tv. deixou-me excelentes recordações e memórias. continue a descansar em paz, minha querida.

  2. jose

    pois é a morte ,que ninguém quer enfrentar ,mas que chegará a casa de todos .. dia mau aquele dia baterá na casa de cada cidadão…

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