Maria da Apresentação: A casa onde os ovos-moles ainda são os que eram

Desde 1882 que a Maria da Apresentação da Cruz, Herdeiros se dedica à confeção dos “melhores ovos-moles de Aveiro.” Mantém-se nas mãos da família, fiel à receita trazida do Convento de Jesus, e conquista gerações de clientes com aquele que “é doce muito ‘chic’”, como disse Eça de Queiroz, em “Os Maias”

Há 132 anos que se mantém fiéis à receita vinda do Convento de Jesus

Há 132 anos que se mantém fiéis à receita vinda do Convento de Jesus

Tal como prometeu à sogra, Silvina Raimundo, 86 anos, mantém bem viva a casa Maria da Apresentação, sem alterar um grama à receita original dos famosos ovos-moles. Há 132 anos que ali se confeciona aquele que foi o primeiro doce conventual certificado no espaço comunitário europeu com Indicação Geográfica Protegida. De Lisboa chegam clientes que procuram a garagem branca das velhinhas da beira-mar. E é por isso que Silvininha, como é conhecida, não muda o portão da garagem do número 37 da Rua D. Jorge Lencastre, em Aveiro. O orgulho para os vizinhos é tal que até acompanham os turistas à loja.

“A história é longa”, avisa desde logo Silvininha. A receita foi deixada pela sogra, que a herdou de uma tia, a D. Odília, tendo esta descoberto o segredo dos “doces finos” através de uma senhora ligada ao Convento de Jesus. Naquela altura, Silvina era professora e dividia-se entre o ensino e a doçaria. Manteve-se assim até se reformar. O que nunca poderia acontecer era falhar com a promessa que tinha feito à sogra antes de ela falecer. “E, quando eu partir, já tenho quem a mantenha”, assegura ao DN. Uma das netas integra a sociedade, onde “não há patrões, nem empregados, e todos são uma família”.

Silvaninha mantém a porta branca da garagem, procurada pelos turistas

Silvaninha mantém a porta branca da garagem, procurada pelos turistas

Para Silvininha, o único segredo que existe para o sucesso da casa está na receita, que nunca foi alterada. “Não nos devemos gabar, mas é por isso que são considerados os melhores ovos-moles de Aveiro.” O fabrico continua a ser totalmente artesanal. O açúcar ainda vai ao lume num tacho de cobre e juntam-lhe as gemas quando atinge aquele ponto, “que dizem que é de pérola”, mas que Silvina só sabe reconhecer, não definir. Depois, deixam arrefecer a mistura para no dia seguinte rechearem as hóstias, cujas formas são sempre ligadas à ria (peixes, bivalves, barricas).
Não falta quem queira vender os ovos-moles da Maria da Apresentação, mas Silvina não quer parcerias. “Temos medo de depois não conseguirmos corresponder aos pedidos”, explica. Só se encontram naquela garagem da beira-mar – transformada em sala – onde as paredes carregam fotografias que contam história e os armários mostram apetrechos de outras gerações. Mas a doçaria que ali é feita corre o mundo. “Há pessoas dos Estados Unidos, por exemplo, que levam e congelam para comer no Natal. Dizem que se forem descongelados lentamente ficam como se estivessem frescos”, conta.

Por ali, trabalha-se no “ciclo inverso à crise”, explica Maria João, a doceira. “Quando o dinheiro é mais escasso, a procura é maior, porque as pessoas valorizam mais a qualidade.” É também por isso que contrariam a tendência e têm cada vez mais pessoas a trabalhar. Depois de muitos anos com seis colaboradoras, hoje são dez. Compram as hóstias na região de Aveiro, onde só existem duas empresas que fornecem todos os produtores. É no recheio que está todo o mistério. E na “calda de açúcar em ponto” que cobre os ovos depois de estarem feitos, para lhes dar brilho e, de certa forma, isolar o tão cobiçado doce.

Silvina Raimundo não consegue precisar a quantidade de doçaria que ali produz por ano. “Mas posso dizer que cada ida de ovos-moles, como lhes chamamos, são 400 gemas. E há dias em que fazemos duas”, refere. Em épocas festivas, como no Natal e na Páscoa, não há mãos a medir. “São presença obrigatória em qualquer mesa”, acrescenta a doceira, que em junho esteve numa feira, em Pelotas, a dar a conhecer o doce aveirense aos brasileiros. Renderam-se de imediato, adianta Maria João, “porque, como nós, têm o paladar treinado para isso. Os nórdicos, por exemplo, não costumam gostar.”

Aqueles que como Silvina se mantêm fiéis à receita original estão hoje mais descansados, porque esta já está protegida. “Muita gente aldrabava, mas desde que surgiu a APOMA [Associação dos Produtores dos Ovos Moles de Aveiro] que só podem ser feitos com ovos, água e açúcar”, sublinha. Todos ficaram a ganhar. “Felizmente há muita concorrência, mas não nos afeta.”

Mas nem só de ovos-moles vive a Maria da Apresentação. Ao longo dos anos foram introduzindo outros doces, nomeadamente os bolos secos. As raivas, diz Silvininha, também têm muita saída. Entretanto, começaram a promover workshops para quem quiser aprender os segredos do doce conventual.

Joana Capucho

Sem comentários

  1. Fernanda

    Sou aí de perto de Aveiro mas vivo em Genebra na Suiça e conheço a vossa casa e os vossos ovos moles e posso dizêr que são deliciosos.

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