Tomé Feteira: Em Vieira de Leiria, a sonhar com a dominação do mundo das limas e grosas

A história centenária da Empresa de Limas União Tomé Feteira, iniciada em 1856, esteve quase a conhecer o epílogo em 2005. Foi salva pelo austríaco Michael Braun (da Braun Söhne), que manteve o nome da família original e lhe deu uma nova vida. Agora, uma das últimas sobreviventes e mais antigas fábricas de limas e grosas da Europa faz negócios nos cinco continentes.

Na Tomé Feteira chegaram a trabalhar 1500 trabalhadores, em meados do século XX.

Na Tomé Feteira chegaram a trabalhar 1500 trabalhadores, em meados do século XX.

As histórias de sucesso, às vezes, dependem de pequenos “ses”. Se Michael Braun não tivesse decidido comprar a Empresa de Limas União Tomé Feteira, em 2005, talvez os próximos parágrafos não existissem. A Braun Söhne, do empresário austríaco, “resgatou” a centenária fábrica de limas e grosas de Vieira de Leiria, nos seus dias mais cinzentos, quando vivia ameaçada por um cenário de insolvência e salários em atraso. E, quase dez anos depois, veem-se frutos: ali, à beira-praia, no concelho da Marinha Grande, mora uma das referências mundiais do sector.
“Tínhamos uma unidade fabril na Áustria, com mais de 200 anos. Quando soubemos que esta fábrica histórica estava à venda, decidimos investir”, recorda Michael Braun, presidente do conselho da administração da empresa, que se foca em quatro áreas de atividade (produção de limas e grosas, folhas de serra, abrasivos e máquinas para a indústria de limas e de ponteiros). Com o investimento (que significou a deslocalização da produção da Braun Söhne da Áustria para Portugal), a “casa” de Vieira de Leiria ganhou novo nome: agora chama-se, formalmente, Tomé Feteira II-Indústria de Limas e Equipamentos SA. E nova vida: “investimos e continuamos a fazê-lo para renovar e melhorar a maquinaria. É um projeto a longo prazo”, explica o dirigente.

Os resultados têm aparecido – numa altura em que outras produtoras europeias de limas e grosas vão sucumbindo à concorrência chinesa e indiana (a Tomé Feteira é das últimas sobreviventes). “Marcamos a diferença pela qualidade. Atualmente, 90 a 95% da produção vai para o estrangeiro. Exportamos para 65 países, incluindo grande parte da Europa, EUA, América do Sul e Central, China e Austrália”, descreve Michael Braun, que aponta a mira à dominação mundial: “O objetivo é estarmos em todo o mundo, dentro de três a quatro anos”.

Do complexo industrial em Vieira de Leiria, concelho da Marinha Grande, saem limas para 65 países, dos cinco continentes.

Do complexo industrial em Vieira de Leiria, concelho da Marinha Grande, saem limas para 65 países, dos cinco continentes.

Tal evolução seria inimaginável quando, há dois séculos, após as invasões francesas, de uma pequena oficina de machados, martelos, arruelas e limas, criada por António Luiz, se foram multiplicando as fábricas do género nas redondezas de Vieira de Leiria. A Forja dos Tomé, criada em 1856, por Joaquim Tomé Feteira (filho de um dos aprendizes de António Luiz), foi a que mais prosperou. E foi absorvendo as restantes, até se transformar na Empresa de Limas União Tomé Feteira, em 1919.

As longos dos tempos, a família foi dominando os segredos de criar limas incorruptíveis (à conta de uma têmpera especial, que incluía carvão, cinza e pó de chifres de bovino, na produção). A fábrica atravessou gerações dos Tomé Feteira, que criaram um vasto império industrial na região [o mais famoso descendente seria mesmo Lúcio Tomé Feteira, falecido em 2000 mas devolvido à ribalta nos últimos anos, devido ao assassínio da sua antiga secretária, Rosalina Ribeiro, no Brasil]. E só no dobrar do milénio sentiu dificuldades.

A chegada da Michael Braun salvaguardou salários, postos de trabalho e a histórica ligação da empresa à região – muitos dos 50 a 70 atuais trabalhadores transitaram da “antiga” Tomé Feteira, que em meados do século XX chegou a empregar mais de 1500 operários. “Tentamos estar próximos das pessoas. Estamos orgulhos da ligação sentimental dos operários à empresa”, admite Michael Braun – e ele próprio se apaixonou pelo centro do País, investindo também num empreendimento turístico na llha do Lombo (na albufeira de Castelo do Bode, em Tomar).
À conta disso, a nova Tomé Feteira II – Indústria de Limas e Equipamentos SA obteve três milhões de euros de faturação no ano passado. E, à boleia de produtos como as limas Tomé Feteira e Blu-Dan, as serras Smart Cut e as grosas Silver Bullet, vai continuar a marcar presença nos cinco continentes.

Rui Marques Simões

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