Casa Campião dá milhões mas na raspadinha

“Campião” e não campeão porque o fundador da Casa Campião se chamava José Pereira Campião. Abriu em Lisboa uma loja de câmbios em 1840 e logo para  vender a Lotaria Nacional Portuguesa, o jogo da sorte que fazia campeões. Mas agora a rainha é a Raspadinha.

A Casa Campião teve uma rede de venda de cautelas por todo o País e marcou presença nos países africanos de expressão portuguesa e aí também deteve o negócio das viagens. Reza a história que tem uma menção no Guiness Nook of World Records como a casa mais antiga de lotarias do mundo.

Nuno Viera Campos, gerente e um dos nove sócios com partes da sociedade que comprou a familiares, não contesta mas desconhece o fundamento. “Não sei se foi uma manobra comercial, mas essa informação circulava na família. Terá sido nos anos 60 do século passado quando houve um congresso na Suécia e se chegou à conclusão de que éramos os mais antigos do mundo”.

A Casa Campião na baixa de Lisboa, 1944

A Casa Campião na baixa de Lisboa, 1944

O dono original, o sr. Campião, nasceu em Tomar e estabeleceu-se como comerciante em Lisboa, anos depois decidiu pegar na Lotaria Nacional Portuguesa, jogo criado por D. Maria I em em 1783, como a principal fonte de rendimentos.

Deixou o negócio a um empregado, Jorge Dias, casado com uma sobrinha e afilhada, e este não mais saiu das mãos dos Dias. Partido e repartido por irmãos, filhos, netos, bisnetos e trisnetos, hoje não dá para enriquecer os donos, diz o gerente, mas faz muita gente feliz. O grande jogo é a Raspadinha. É barato e o dinheiro do prémio é instantâneo.

Os prémios e as lotarias evoluíram (Clássica e Popular) e fez crescer o negócio. Mas isso parecer sido há muitos anos. “A Lotaria está moribunda. Antigamente, chegava-se ao dia de “andar à roda” e não havia uma cautela para venda. O Totobola morreu e, até, o Euromilhões já se vendeu mais. O jogo funcionava como a vontade de jogar, mas hoje não é assim. Também havia pouca escolha, hoje há uma maior variedade de jogo não só o da Santa Casa da Misericórdia como na Internet”, explica Nuno Campos.

Sede manté-se na Rua do Amparo

Sede manté-se na Rua do Amparo

A casa mãe mantém-se no número 26 da Rua do Amparo da baixa lisboeta e há outras 15 lojas espalhadas por Portugal Continental e Funchal, onde trabalham 65 funcionários. Vendem a Lotaria, Totobola, Totoloto e Loto, foram pioneiros no jogo online, como o Totobola e a Lotaria, mas o que leva mais os portugueses a apostar é a Raspadinha.“Há 15 espécies e que custam entre um e cinco euros e vendemos tudo, é uma febre louca, talvez porque o prémio seja imediato”, conta o empresário, referindo que fazem uma média de 7 milhões de euros por ano em raspadinhas. Segue-se o Euromilhões, o Loto, a Lotaria e, for fim, o Totobola em volume de negócios. Entretanto, abriram os balcões ao sistema de pagamento PayShop e das telecomunicações Uzo. E muitos destes clientes não saem sem compra uma Raspadinha.
Nuno Campos classifica a Raspadinha como o jogo “mais eclético do mundo” dado o leque de pessoas que atrai embora admita que sejam maioritariamente da classe média baixa. “Desde a criança que pede ao pai para a comprar até à velhota de 80 anos, homem ou mulher”, explica.

A Lotaria é comprada “pelas pessoas mais antigas ou tradicionais da baixa de Lisboa e “há muitos jovens e senhoras a optar pelo Euromilhões”.

E a crise está a ajudar? “Estão  a comprar mais. Mas não é pelo prazer de jogar, é com a esperança que um dia lhe saia alguma coisa”.

Uma cautela do tempo dos reais

Uma cautela do tempo dos reais

É a segunda vez que Nuno Campos refere “o prazer do jogo”, de comprar uma cautela ou de fazer uma aposta. Ele diz sentir prazer no negócio que abraçou aos 44 anos e depois de estar emigrado 11 anos em Londres. “Foi uma questão de hábito, já aqui tinha trabalhado e conhecia muito bem o negócio, achei que podia dar continuidade e fazer um bom trabalho. E gosto disto”, justifica, salientando que um dos dois filhos “está mortinho” para seguir as pisadas do pai. Mas primeiro estão os estudos e tirar um curso superior como Nuno Campos não fez. “Em miúdo queria ser gestor”.

A alegria de quem trabalha na Casa Campião é maior, garante, quando vendem um grande prémio, como um bilhete inteiro de uma Lotaria de Natal ou um primeiro prémio do Euromilhões, como já aconteceu.

As histórias de vendedores de jogo que recebem “gratificações” são algumas mas Nuno Campos assegura que a ele isso nunca calhou. E conta:   “No princípio de estar aqui, ainda o Totobola era um jogo forte, preparava apostas de múltiplas para vender. Uma senhora queria um boletim de determinado valor e, como não havia, fiz uma aposta nova. Acertou no 13 e ganhou 390 euros, o que era uma loucura naquele tempo. Vinha cá quase todos os dias saber quando recebia o prémio, já irritada porque estava cá de férias e queria ir embora. Quando o recebeu nem cinco tostões deu”.

Céu Neves

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