Porque para Vieira da Silva pintores são “animais mudos”

Instalada em Paris em 1928, dois anos depois, Vieira da Silva casa-se com Arpad Szenes. Nos 55 anos seguintes, até à morte do pintor húngaro, os dois partilharam o amor à arte e ao outro.

Instalada em Paris em 1928, dois anos depois, Vieira da Silva casa-se com Arpad Szenes. Nos 55 anos seguintes, até à morte do pintor húngaro, os dois partilharam o amor à arte e ao outro.

O DIA EM QUE O DN CONTOU: Em 1987, dois anos após a morte do marido, o pintor húngaro Arpad Szenes, Maria Helena Vieira da Silva sai de França e vem a Portugal inaugurar uma exposição da obra deste na Gulbenkian. Numa entrevista ao DN publicada a 31 de maio, a pintora mostra-se cansada e garante: “Não estou contente com o que faço

Cansaço e silêncio. São essas as palavras que marcam a entrevista de António de Sousa a Maria Helena Vieira da Silva. A pintora deixara França e viera a Portugal inaugurar uma exposição de Arpad Szenes na Fundação Calouste Gulbenkian e aceitou o desafio do DN para uma entrevista. “Do Diário de Notícias?”, inquiriu a pintora “ao mesmo tempo interessada e ausente”, antes de marcar o encontro no hotel onde estava hospedada. A entrevista seria publicada a 31 de maio de 1987, num suplemento de Cultura cuja capa era ilustrada com um cartoon de Vasco. O título: “Os pintores são animais mudos”.

A vinda de Vieira da Silva a Portugal em 1987 prende-se com a transposição para azulejo do seu quadro Le Metro. A pintora foi ainda condecorada pelo então presidente Mário Soares com a Ordem da Liberdade.

A vinda de Vieira da Silva a Portugal em 1987 prende-se com a transposição para azulejo do seu quadro Le Metro. A pintora foi ainda condecorada pelo então presidente Mário Soares com a Ordem da Liberdade.

No dia combinado, “às 17 e 30”, António de Sousa e o repórter fotográfico Álvaro Tavares esperavam no hall do hotel pela chegada da pintora que chegou com “os cabelos cinzentos caídos nos ombros, um imenso cansaço em todo o corpo, visível à distância”. Vinha com Maria Isabel Brito da Mana, “que a acompanhou durante o mês em que a pintora esteve em Portugal” e que pede à equipa do DN para esperar enquanto Vieira da Silva descansa.

Quando chegam ao quarto da pintora, os repórteres deparam-se com respostas lacónicas. Vieira da Silva recusa, além do mais, ser fotografada. “Não sou feita para falar. Sou feita para pintar. Os pintores são animais mudos”, explica. E nem as perguntas sobre o marido, o pintor húngaro Arpad Szenes, falecido dois anos antes, a tiram do mutismo.

O trabalho de Cargaleiro pode ser visto na estação da Cidade Universitária

O trabalho de Cargaleiro pode ser visto na estação da Cidade Universitária

Um dos poucos momentos em que Vieira da Silva, então com 79 anos, se entusiasma é quando fala do seu quadro Le Metro, que o pintor Manuel Cargaleiro estava a reproduzir em azulejos para a estação de metro da Cidade Universitária. No final da conversa, Vieira da Silva confessa “Não estou contente com o que faço” e acrescenta: “Eu preciso de pensar muito a sério que não vou viver muito mais e tenho de fazer o melhor possível.”

HELENA TECEDEIRO

Um cartoon de vasco ilustra suplemento. A entrevista de António de Sousa a Maria Helena Vieira da Silva foi publicada no suplemen-to de Cultura do DN de 31 de maio de 1987. A ilustrar o trabalho, um cartoon de Vasco que destaca o perfil caracte-rístico da pintora e a mostra pensativa e de pincéis na mão. No interior, fotos antigas, ou não tivesse Vieira da Silva recusado ser fotografada na entrevista.

Um cartoon de vasco ilustra suplemento. A entrevista de António de Sousa a Maria Helena Vieira da Silva foi publicada no suplemen-to de Cultura do DN de 31 de maio de 1987. A ilustrar o trabalho, um cartoon de Vasco que destaca o perfil caracte-rístico da pintora e a mostra pensativa e de pincéis na mão. No interior, fotos antigas, ou não tivesse Vieira da Silva recusado ser fotografada na entrevista.

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