Casa Coração de Jesus: Um negócio que já foi colocado em risco pelo Vaticano e por Fátima

Começou em 1885 como loja de bordados em vestes litúrgicas e chegou a fornecer até a Sé Catedral de Goa, mas hoje vende de tudo o que são artigos religiosos. A Casa Coração de Jesus mais parece uma igreja em ponto pequeno e atrai a atenção dos turistas na baixa do Porto, apesar das vendas estarem cada vez mais fracas pela concorrência dos artigos chineses e do Santuário de Fátima

Ao ver-se rodeado de imagens de santos em terracota, terços, livros religiosos, vestuário litúrgico, quem entra nesta loja sente-se como numa igreja em ponto pequeno.

João Melo, sobrinho-neto do fundador e atual proprietário da loja da loja fundada em 1885

João Melo, sobrinho-neto do fundador e atual proprietário da loja da loja fundada em 1885

A Casa Coração de Jesus foi fundada em 1885 por Joaquim da Silva Melo, que aproveitou os dotes da sua esposa como bordadeira para abrir ao público um espaço onde pudesse vender paramentaria para as muitas igrejas do Porto e arredores. Mas não só. “Esta casa tem ainda hoje como principais clientes algumas igrejas da região do Douro e da zona de Aveiro, por causa da ligação ao caminho-de-ferro, mas fizemos bordados para todo o mundo, até para a Sé Catedral de Goa”, conta ao DN João Melo, sobrinho-neto do fundador e atual proprietário da loja.

Quando na década de 1950, Joaquim da Silva Melo deixou as antigas instalações na Rua do Corpo da Guarda, nas traseiras da atual loja, procurou manter a proximidade da Estação de São Bento, para estar a dois passos dos principais clientes, padres da província que chegavam ao Porto de comboio. Encontrou uma casa bancária que lhe cedeu a loja por 100 contos de réis. Uma fortuna, na altura, mas as vendas corriam bem e justificavam o investimento.

A viabilidade do negócio havia, porém, de sofrer um rombo em 1962 por causa do Concílio Vaticano II, onde ficou decidido eliminar o fausto nos paramentos litúrgicos. Como consequência, aos poucos as bordadeiras foram deixando de ter trabalho.

“Os padres e bispos deixaram de usar pálios e mantos sumptuosos bordados a ouro e o negócio ressentiu-se imenso. Era nesse tipo de trabalho que se ganhava mais dinheiro. O último manto bordado que fizemos foi em 1991, mas já com tremendas dificuldades de encontrar uma bordadeira para o executar”, conta João Melo, que assistiu ao longo das últimas décadas à mudança do aspeto da loja para manter as portas abertas: “Começámos a vender muito mais imagens de santos e também lanternas, cálices…”

A Casa Coração de Jesus tem como traço distintivo os santos em terracota

A Casa Coração de Jesus tem como traço distintivo os santos em terracota

Apesar da diversificação dos produtos, o problema passou a ser outro. Se dantes foi o Vaticano, mais recentemente tem sido Fátima a comprometer o negócio… “O acesso a Fátima é cada vez mais fácil. As pessoas deslocam-se ao santuário em muito menos tempo e vão lá mais vezes, pelo que preferem comprar lá as imagens dos santos e de Nossa Senhora. É mais caro, mas como são benzidas as pessoas preferem comprar lá. Fátima evoluiu muito no comércio de artigos religiosos e paramentaria; há lá casas que são autênticos supermercados. E mesmo à distância nós acabamos por sentir isso”, argumenta João Melo, recordando que na baixa do Porto têm encerrado várias lojas de comércio de artigos religiosos e de arte sacra. Sobram agora três, que resistem também à concorrência feita pelos artigos chineses, sobretudo nas representações de santos, que custam um quinto do preço, apesar do “material ser muito fraco”.

A Casa Coração de Jesus tem como traço distintivo os santos em terracota, um processo milenar em que o barro é tratado, lavado e batido, passando de vermelho a cinzento, para a peça ficar com mais resistência. Para manter a tradição, João Melo teve de comprar os moldes para que a fábrica continuasse a produzir.
São peças deste tipo e todo o enquadramento do espaço, com madeiras e vitrais e um corrimão a circular o primeiro andar que impressionam os turistas que entram na loja, no número 302 da Rua Mouzinho da Silveira.
“Isto é uma zona onde passam muitos turistas. E de facto eles entram aqui, mas sobretudo para apreciarem a loja. Dão-me os parabéns e levam um cartãozinho, mas ficamos por aí. A exceção os brasileiros, que esgotam o stock de terços e procuram as imagens de Nossa Senhora de Fátima e Santo António”, conta João Melo, que tomou conta da loja quando o avô faleceu em 1995 e que desde então tem-se também dedicado aos restauros de igrejas no Interior do País. “Aprendi muito desde que cá cheguei e hoje discuto sobre restauros e artigos religiosos com qualquer um… É isso e os clientes antigos que são fiéis que vão mantendo o negócio. Mas não tenho muita fé no futuro.”

Sérgio Pires

Existem 4 comentários

  1. Indumentárias bordadas a ouro

    Para impressionar os analfabetos e criar um estilo importante…o que é preciso é amedrontar que o resto vem por simpatia!

  2. Wagner de Paula Soares

    Sou brasileiro já estive algumas vezes em Porto mas não conheço esta loja. Com certeza na próxima vizita irei conhecê-la e comprar estas peças que são boas lembrancinhas para os amigos, além de poder admirar esta obra de arte que resistiu magnificamente ao tempo.

  3. Adri

    Estive nesta loja em dezembro. Muito atraente com lapinhas e presepios . Quando retornar ao Porto certamente la passarei e agora com mais espaço na mala.

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