Como era caçada a baleia nos mares da Madeira

OS DIAS EM QUE O DN CONTOU: Em agosto de 1963, o Diário de Notícias publicou uma série de reportagens sobre a caça à baleia nos mares do arquipélago da Madeira. A autora do trabalho foi a intrépida Manuela de Azevedo que não hesitou em viver em direto a experiência: acompanhou os pescadores e escapou de “levar uma bofetada de 1500 Kg”

“Pelos Mares da Madeira” era o antetítulo comum a todos os textos que Manuela de Azevedo enviava do Funchal e que o DN publicava diariamente nas suas edições de agosto de 1963. Sempre com início na primeira página e num total de 13. Escritas na primeira pessoa, as reportagens são de um tal realismo que possibilitam ao leitor fazer parte da ação e quase percecionar odores e movimentos que a ela estão ligados.

Os baleeiros da Madeira confiam à jornalista que todos ganham quando se caça uma baleia, não só os que vão para o mar mas também os que ficam em terra. Todos recebem uma percen-tagem do rendimento que um cetáceo dá. Na fábrica onde trabalham, a partir da baleia, consegue-se o óleo e as farinhas que se exportam. São centenas de pessoas a usufruir.

Os baleeiros da Madeira confiam à jornalista que todos ganham quando se caça uma baleia, não só os que vão para o mar mas também os que ficam em terra. Todos recebem uma percen-tagem do rendimento que um cetáceo dá. Na fábrica onde trabalham, a partir da baleia, consegue-se o óleo e as farinhas que se exportam. São centenas de pessoas a usufruir.

“Ergo-me violentamente. Tenho a meus pés três monstros sem medida, suavemente emergindo da boca do oceano. Esqueço o equilíbrio da casquinha de noz em que vogamos. Sinto-me ao mesmo tempo atraída, confusa e amedrontada. Os monstros são de um tom acizentado e o cheiro do seu hálito causa náuseas”, pode ler-se no início da reportagem publicada no dia 27 de agosto, que tem como título “A Luta Emocionante/do Homem e do Cachalote” e que conta as “13 horas de fome e de mar” que a jornalista viveu na companhia dos baleeiros.
E o texto prossegue, relatando como o arpador se prepara para lançar o arpão contra um “dos monstros” que, quando atingido, “como se o ouvíssemos dar um terrível urro silencioso, pulara, arremetera o focinho para a frente, dera duas tremendas “pataladas” com a barbatana e submergira na mancha da água amarelada e fétida”.

Nos anos 60, revela a jornalista do DN, a Madeira dependia do turismo, da exportação dos produtos ligados à caça da baleia e, em especial, da exportação de “mão de obra para a Venezuela”.

Nos anos 60, revela a jornalista do DN, a Madeira dependia do turismo, da exportação dos produtos ligados à caça da baleia e, em especial, da exportação de “mão de obra para a Venezuela”.

A aventura continua à medida que o cachalote reage à dor que lhe provocaram e que o levará à morte. “O barco oscila, os homens levam as mãos ao chão. Volteio violentamente da proa para a popa ainda a tempo de ver erguer-se, a uns doze metros, a tromba de água que desce sobre mim, alagando-me e à baleeira. (…). Só agora reparo. A meio metro de mim, a borda de estibordo está espatifada e tem um rombo que deve ter uns trinta centímetros.  Livrei-me a tempo de boa bofetada, uma bofetada de 1500 quilos, com a barbatana peitoral do monstro”.
O cachalote foge à dor e, ao fazê-lo, arrasta consigo a baleeira para alto mar onde morre. Longe da costa, à deriva, têm de aguardar quem os reboque. São “13 horas de fome e mar”, revela-nos o nome incontornável do jornalismo português, e de luta “contra o enjoo”.

No República, na época do “lápis azul” (censura), a primeira mulher a ter carteira profissional inicia a sua carreira. Termina-a no DN, aos 80 anos. Manuela de Azevedo despede-se do jornalismo mas não da escrita: em 2013, aos 102 anos, publicou o livro de contos “Sinfonia Completa”.

No República, na época do “lápis azul” (censura), a primeira mulher a ter carteira profissional inicia a sua carreira. Termina-a no DN, aos 80 anos. Manuela de Azevedo despede-se do jornalismo mas não da escrita: em 2013, aos 102 anos, publicou o livro de contos “Sinfonia Completa”.

LUMENA RAPOSO

 

 

Existem 3 comentários

  1. UlissesdeTroia

    Não gosto, neste caso, que chamem caça à baleia, mas sim ao cachalote. A diferença é muito grande embora a família seja a mesma. A baleia não tem dentes, tem “barbas”; o cachalote tem dentes…e grandes e ataca a baleia…e é mais pequeno. Cada coisa no seu lugar.

  2. Buster

    Sr Ulisses,
    Há baleias com dentes e há baleias sem dentes (portanto, com barbas).
    O cachalote sempre foi e sempre será um cetáceo – portanto, sempre será uma baleia (assim como os golfinhos e os botos também o são!).
    O facto de o Sr Ulisses não gostar não interessa nada: a ciência é o que é e, nestes casos, a história e os cientistas já decidiram.
    Assim sendo: cada coisa no seu lugar – e o Sr. Ulisses no seu; porque, no mundo inteiro, “caça à baleia” é, também, sinónimo de “caça ao cachalote”.
    Cumprimentos.

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