A vitória do primeiro presidente negro nos EUA

O DIA QUE O DN CONTOU: 4 de novembro de 2008: entre Obama e McCain, entre o veterano republicano branco da guerra do Vietname e o democrata negro que trazia a promessa de uma mudança salvífica e de uma estreia, a de um “não branco” no primeiro lugar, a América escolhia. E escolheu a esperança. O DN dedicou no dia seguinte seis páginas ao evento.

O primeiro discurso do Presidente eleito, na noite de 4 de novembro

O primeiro discurso do Presidente eleito, na noite de 4 de novembro

“Esperámos tantos anos, podemos esperar mais algumas horas.” Citada na reportagem do enviado especial do DN, a frase do chefe de estratégia da campanha de Obama, David Axelrod, a meio da noite eleitoral, era já madrugada em Lisboa, mantinha o suspense enquanto se contavam os votos. Na Carolina do Norte (que é um estado do Sul, esclavagista na Guerra da Secessão), de onde reportava Ferreira Fernandes, a coisa estava ainda por decidir à hora do fecho do DN (que não podia seguir o conselho de Axelrod porque os jornais têm de estar de manhã nas bancas): no mapa publicado no dia seguinte, é um dos dez estados a amarelo, ainda “em aberto”, entalada entre estados vermelhos (a cor dos republicanos). E FF comentava: “Noutros anos, a Carolina do Norte já estaria decidida a esta hora, e para os republicanos.” Nada que impedisse, no entanto, ganhos o Ohio – sem o qual nenhum presidente tinha sido eleito até então, averbava a cor azul dos democratas – e a Pensilvânia, que se anunciasse o vencedor e que o DN titulasse, em manchete, “Obama histórico”, frisando tratar-se de “o primeiro não branco a ser eleito para o cargo”.

Mas na sua coluna habitual do dia anterior (portanto o das eleições) o redator principal do jornal tinha anunciado, por artes mágicas, os resultados definitivos, chamando-lhes “números cabalísticos”. Apoiou-se no blogue Five thirty eight (538, os membros do colégio eleitoral que elegem o presidente – nos EUA o sistema funciona de forma diferente do português, já que a eleição não depende diretamente da contagem de votos dos eleitores mas no número de membros do colégio eleitoral correspondente a cada Estado), do matemático Nate Silver, então com 30 anos, que acertou em tudo.

We Made History - Fizemos História, diz o cartaz atrás deste eleitor em Nova Iorque

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E é Nate que seis anos depois, ao ser inquirido sobre a sua cobertura da campanha, FF começa por mencionar. “Não estava convencido de que Obama ia ganhar até ver que esse tipo dizia que sim. Gostei muito de seguir o trabalho dele como analista de sondagens, foi muito interessante.” Da campanha propriamente dita, em que escolheu andar em estados que podiam ser decisivos, como o Ohio, a Pensilvânia (que fora fundamental na eleição anterior) e a Carolina do Norte, o jornalista guardou menos memória que das primárias entre Obama e Hillary, as quais também reportou para o DN.

Quanto à “raça” – palavra que nos EUA se usa apesar de ser incorreta, sendo mais adequado falar de cor, já que raça de homens só há uma, a humana – não teria, de acordo com as análises que o enviado do DN refere, sido determinante, mesmo se termina o texto dizendo que os votantes negros votaram em massa, levados pelo orgulho. Ou seja: não foi mas foi.

A Carolina do Norte seria mesmo ganha por Obama, com uma margem de 0,32% sobre McCain, juntando-se às também sulistas Virgínia e à Florida na contagem azul. Mas em 2012 voltaria a ser vermelha, no confronto Obama/Romney, com o republicano a ganhar por uma margem de 2,04%.

FERNANDA CÂNCIO

Sem comentários

  1. Ferreira

    O homem não é “negro” é “mulato”… até o jornalista está a ser preconceituoso (inadvertidamente e caindo nas amarras dos tempos…i.e. qualquer “contaminação” deixa de ser branco, como se isso tivesse que ser importante para o que quer que seja)

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