Entrevista ao Dalai Lama nos Himalaias

O DIA EM QUE O DN CONTOU: 22 de novembro de 2001, o DN publicava uma entrevista com o líder espiritual tibetano, o Dalai Lama, a anteceder uma viagem a Portugal, que se iniciava a 24, passando pelo Porto, Coimbra, Fátima e Lisboa. Seria a a primeira visita do Nobel da Paz de 1989 a Portugal, a que se seguiria uma segunda em 2007

A entrevista fora realizada 13 de junho pelo jornalista Ricardo de Saavedra, que desempenhou várias funções de chefia no DN e outras publicações do grupo, em Dharamsala, na Índia, onde tem sede o governo tibetano no exílio e que começa por descrever o momento em que “Tenzin Gyatso, XIV Dalai-Lama, entrou por uma das portas ao lado do altar” na sala onde decorreria a entrevista, que “duraria apenas sessenta minutos”.

O líder espiritual tibetano esteve no Porto, onde proferiu uma conferência, visitando também Lisboa, Coimbra e Fátima, neste caso para expressar o seu "respeito, admiração e apreciação para com outra religião, neste caso com o catolicismo, por ser uma das maiores religiões, presente em todo o mundo.”

O líder espiritual tibetano esteve no Porto, onde proferiu uma conferência, visitando também Lisboa, Coimbra e Fátima, neste caso para expressar o seu “respeito, admiração e apreciação para com outra religião, neste caso com o catolicismo, por ser uma das maiores religiões, presente em todo o mundo.”

“O cabelo rapado já não disfarça o grisalho de 66 anos de idade. Os óculos são os mesmos de sempre, lentes enormes, ligeiramente fumadas. A diferença está naquele sorriso de grande serenidade, que cativa ao primeiro encontro. Estende os braços, num gesto de boas-vindas, para receber a khata (lenço de seda) que lhe oferecemos, e deixa ao sorriso a tarefa de dizer o que pensa.”

A primeira pergunta é sobre a visita a Portugal, à qual Tenzin Gyatso responde estava “em falta” por não ter ainda estado “na vossa terra”, desde que, em 1973, começou a visitar a Europa. A passagem por Fátima é o tema seguinte, afirmando o Dalai Lama que será visita “sobretudo no plano espiritual, como um verdadeiro peregrino”, para “expressar o meu respeito, admiração e apreciação para com outra religião, neste caso com o catolicismo, por ser uma das maiores religiões, presente em todo o mundo.”

Após algumas considerações sobre “divergências na teologia, na filosofia do conhecimento”, admite que de “uma maneira geral, penso como o Papa.” Mas será a atualidade e a questão da ocupação chinesa do Tibete assim como o futuro político deste país que domina, em seguida, a entrevista que se estende ao longo de quatro páginas e que fez manchete da edição de 22 de novembro sob o título “Posso ser o último Dalai-Lama”.

“O Dalai-Lama fala pausadamente, gesticula mais do que esperávamos e ri-se com vontade sempre que o tema ou o humor que gosta de pôr nas respostas dá azo a uma boa gargalhada”, ainda que o tema seja a instituição que o líder tibetano personifica. À pergunta sobre o futuro da instituição, aquele que nasceu com o nome de Lhamo Dhondup, diz que, desde 1969, deixou “bem claro que a continuação ou não da Instituição Dalai-Lama dependia do povo tibetano. Depois, em 1992, reafirmei que o dia do nosso regresso à pátria iria materializar-se, logo que o pudéssemos fazer com alguma liberdade. Nessa altura, entregarei toda a minha autoridade religiosa ao governo regional. (…). No caso de a maioria [do povo tibetano] sentir que a Instituição Dalai-Lama já não é relevante, esta instituição deverá deixar de existir automaticamente. e nesse caso serei o último Dalai-Lama.

Sobre o conflito com Pequim, garante não procurar “a independência nem a separação da China, não obstante o passado histórico” e, apesar das “muitas repressões públicas, no que respeita, por exemplo, a crenças religiosas e à liberdade religiosa em geral”, não deixa de acreditar que “a liberdade nascerá para o Tibete”.

Abel Coelho de Morais

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