CUF: Do azeite aos hospitais, a herança de Alfredo da Silva continua bem viva

A socióloga Maria Filomena Mónica chamou-lhe um dia o ‘tycoon’ português. Alfredo da Silva (1871-1942) foi um industrial ímpar em Portugal, tendo criado um império que empregava milhares de pessoas, dinamizava a economia, abrangendo áreas que iam do setor financeiro ao químico, do têxtil e aos minérios, passando pela alimentação e saúde. Esse império dava pelo nome de Companhia União Fabril, conhecida ainda hoje pela sigla, CUF.

Na vertente da saúde, a CUF inaugura, em 1945, o hospital na Infante Santo. Ainda hoje toda a gente lhe chama “o Hospital da CUF”. Era um sonho de Alfredo da Silva, que morreu três anos antes, não podendo  assistir à sua concretização

Na vertente da saúde, a CUF inaugura, em 1945, o hospital na Infante Santo.
Ainda hoje toda a gente lhe chama “o Hospital da CUF”.
Era um sonho de Alfredo da Silva, que morreu dois anos antes, não podendo
assistir à sua concretização

“O meu bisavô visionava um Portugal moderno e industrializado e foi com esse propósito que dedicou 50 anos da sua vida a construir um grupo que viria a ser conhecido como Grupo CUF e que nasceu da fusão, em 1898, de duas companhias que se encontravam numa situação económica difícil. Ao longo dos anos, o Grupo CUF conseguiu ser um exemplo de crescimento e desenvolvimento, vindo a integrar no seu perímetro empresas como a Tabaqueira, o Estaleiro da Rocha do Conde d’Óbidos (futura Lisnave), a Companhia de Seguros Império ou o Banco Totta, só para dar alguns exemplos. O que Portugal não tinha, a CUF criava”, diz ao DN Vasco de Mello, presidente do Grupo José de Mello e bisneto de Alfredo da Silva.

A associação ao nome CUF é reforçada pelo facto de a rede de unidades  José de Mello Saúde desenvolver hoje a sua atividade sob a marca Saúde CUF.

A associação ao nome CUF é reforçada pelo facto de a rede de unidades
José de Mello Saúde desenvolver hoje a sua atividade sob a marca Saúde CUF.

“A CUF, com a maioria das empresas concentradas no Barreiro, chegou a ser o maior grupo económico da Península Ibérica e um dos cinco maiores da Europa. Foi o Barreiro que assistiu de perto ao crescimento do grupo, que passou de uma fábrica de sabonetes, velas e adubos, a um conglomerado que abrangeu os setores da indústria, comércio, transportes, agricultura, banca e seguros. Quando sofre o golpe das nacionalizações, em 1975, o grupo CUF empregava perto de 110 mil pessoas e valia 5% de toda a riqueza produzida em Portugal. Hoje, os valores do empreendedorismo, do gosto pelos risco e pela inovação estão ainda bem presentes no universo empresarial dos descendentes de Alfredo da Silva”, afirma ao DN Manuel Alfredo de Mello, outro dos bisnetos do industrial e presidente da Nutrinveste.

Os grupos José de Mello e Nutrinveste fazem parte do legado deixado pelos netos de Alfredo da Silva, José e Jorge de Mello. O primeiro é pai de Vasco de Mello, o segundo de Manuel Alfredo de Mello. Eram filhos de D. Manuel Augusto José de Mello e Amélia de Resende Dias de Oliveira da Silva, a única filha de Alfredo da Silva e Maria Cristina de Resende Dias de Oliveira. José Manuel de Mello morreu em 2009, aos 82 anos, o irmão Jorge de Mello, em 2013, aos 92 anos. “A memória mais importante que guardamos é o exemplo que nos foi deixado de desenvolvermos a nossa atividade empresarial com espírito criador, com uma forte capacidade para criar empresas e emprego, para inovar e fomentar as exportações”, sublinha Vasco de Mello, enquanto o Manuel Alfredo de Mello diz guardar “uma memória de pessoas com uma total disponibilidade para as empresas que geriam e uma visão empresarial superior”.

Alfredo da Silva, fundador da CUF

Alfredo da Silva, fundador da CUF

Regressados a Portugal, após terem perdido todos os ativos durante as nacionalizações, os herdeiros de Alfredo da Silva seguiram as suas pisadas e hoje, admitem, a diversificação continua a ser a alma do negócio. “Foi o exemplo de diversificação que sempre marcou o Grupo CUF que acabou por determinar o nosso processo de reconstrução empresarial, sendo hoje o Grupo José de Mello um novo exemplo de diversificação nos negócios. Gerimos hoje, no Grupo José de Mello, um conjunto de ativos em áreas diversificadas da economia, desde as infraestruturas, serviços e mobilidade (Brisa), indústria química (CUF), eletrónica e eletromecânica (Efacec), à àrea da Saúde (José de Mello Saúde), assumindo sempre um posicionamento de liderança”, refere Vasco de Mello.

“Depois de termos vendido a Compal e a Nutricafés, estamos focados nos óleos alimentares e na fileira do azeite, desde os olivais, aos lagares, embalamento e venda de vários tipos de embalagens. Apostámos fortemente na internacionalização da Sovena [detida pela Nutrinveste], reforçando a sua presença em Espanha, investindo nos EUA, Brasil, Tunísia, integrando a cadeia de valor do azeite com plantações em Portugal, Espanha e Marrocos. Atualmente, a Sovena é uma das duas maiores empresas de azeite a nível mundial e a única empresa, de grande dimensão no mundo, que integra toda a sua cadeia de valor: desde o olival e lagar, ao embalamento e distribuição”, explica Manuel Alfredo de Mello.

E quanto à economia portuguesa? Aprendeu alguma coisa com o exemplo de Alfredo da Silva? No que toca ao empreendedorismo, risco, inovação e diversificação? “O caminho percorrido os últimos dois-três anos está correto, mas tem que ser continuado, sem dúvidas nem contemplações. Temos de ser capazes de internacionalizar, ainda mais, a nossa economia. Há muitos exemplos fantásticos de gente vencedora neste caminho, mas temos de continuar, sem hesitações, eliminando os vários estrangulamentos à melhor eficiência da nossa economia”, aconselha Manuel Alfredo de Mello. Mas o presidente da Nutrinveste não se alonga em detalhes. Já Vasco de Mello avança que “parece claro que o caminho seria mais fácil e mais rápido de fazer caso fosse possível um consenso de regime alargado”. Para o presidente do Grupo José de Mello “falta fazer um longo caminho para tornar o Estado mais ágil, mais regulador e menos prestador, a que acresce a necessidade de termos uma justiça mais célere e eficaz e o reconhecimento, por parte de toda a sociedade, do papel e da importância da iniciativa privada no desenvolvimento da economia e de Portugal”.

PATRÍCIA VIEGAS

Existem 20 comentários

  1. jorge

    De empreendedores assim é que o pais precisa. Infelizmente após o 25 de Abril mandaram-nos embora. E muita falta nos tem feito.
    Bem hajam.

  2. UlissesdeTroia

    Este império que tratava bem dos seus funcionários (qualquer trabalhador da CUF ganhava mais do que qualquer outro), haveria de passar um mau bocado com o 25 Abril 74, graças ao PCP e à sua trupe:Lisnave, Setenave, Quimigal e por aí fora, estragaram tudo. A vida laboral neste país está toda danificada, graças a este partido (que tanta fala de produção, mas que não sabe o que é) acha que os trabalhadores devem ganhar tanto como os patrões. Este governo fez o resto e a realidade são 1,2 milhões de desempregados. Trabalhei na CUF e tenho muito orgulho disso. Grande empresa. Alfredo da Silva deve estar a rebolar-se na tumba ao ver a sua obra destruída.

    1. Ferreirinha

      Excelente comentário Sr. Ulisses. Bem haja a pessoas como o senhor que não têm vergonha de dizer a verdade sobre o pior partido a nivel politico, social e economico no nosso pais…

  3. MyWay

    Isto é ELEMENTAR, mas parece que ninguém com responsabilidades públicas o percebe: “falta fazer um longo caminho para tornar o Estado mais ágil, mais regulador e menos prestador, a que acresce a necessidade de termos uma justiça mais célere e eficaz e o reconhecimento, por parte de toda a sociedade, do papel e da importância da iniciativa privada no desenvolvimento da economia e de Portugal”.

  4. Ponto final

    É incontestável que deixou uma grande obra, mas como todos os grandes Homens nunca conseguem o êxito sozinhos, há sempre algo ou alguém mais. Vivia-se a época do El Dourado dos Monopólios. Ainda no tempo do Prof.Salazar os Monopólios eram fortemente defendidos pelo governo, que reservava o enriquecimento para os amigos que eram aceites na órbita do “sistema”. E para se poder sobreviver, a regra capitalista: Ser dos que eram, ser dos que são e ser dos que virão.

  5. HA

    Esqueceram se de mencionar que o investimento privado em Portugal corresponde a uma escravidão camuflada onde são pedidas responsabilidades e trabalho quando não são dadas condições nem valorização, para não falar de formação.

    As curtas vistas da Gestão de topo em Portugal, preocupados com o resultado no final do ano e não daqui a 5 ou 10 anos, o desconhecimento do que realmente se passa na operação das suas empresas e outras razões mais obscuras, fazem com que estejamos onde estamos, na mais profunda e total trampa. Pior é que as agendas politicas não servem os interesses do país, apenas o de alguns bolsos. E ainda há quem defenda esta americanização de Portugal que se tem feito….

  6. ninguém

    Há sempre um borrego a tentar denegrir as grandes obras de GRANDES HOMENS.
    Alfredo foi um grande homem, os descendentes não me impressionam por aí além.

  7. O Atento

    .Quanto aos comentarios que por aqui passam eu só tenho a dizer que não devemos estar a falar do mesmo grupo C.U.F. pois eu trabalhei para ele “grupo” quase quarenta anos e só me reformei á cinco anos e até por sinal ainda trabalhei com o seu descendente Salvador e tanto quanto sei aquilo sempre foi GRUPO C.U.F. e sempre foi gerido por pessoas vda sua confiança

  8. O Atento

    Quanto aos comentarios que por aqui passam eu só tenho a dizer que não devemos estar a falar do mesmo grupo C.U.F. pois eu trabalhei para ele “grupo” quase quarenta anos e só me reformei á cinco anos e até por sinal ainda trabalhei com o seu descendente Salvador e tanto quanto sei aquilo sempre foi GRUPO C.U.F. e sempre foi gerido por pessoas vda sua confiança

  9. L Pereira

    O partido comunista destruio muitas empresas. Destrui milhares de postos de trabalho. Mas sem duvida que o seu maior feito foi a destruição da CUF. Os mais novos não têm noção do que era a CUF no Barreiro , onde hoje é um descampado
    miserável. Devem os comunistas erguer lá uma estátua do alvaro cunhal.

  10. Manuela

    GRANDES PATRÕES, trabalhei na CUF e da qual me orgulho muito, muito, de ter lá trabalhado, patrões como estes são muito poucos ou nenhuns valorizavam os seus funcionários, tínhamos regalias imensas, mas infelizmente destruíram tudo após o 25 de Abril (PCP).

  11. Maria

    Falando apenas nos hospitais, posso dizer que os descendentes do Sr. Alfredo estão a denegrir a imagem construída por ele. A começar pelo Hospital CUF Descobertas, onde são roubados pertences dos pacientes/clientes como alianças e brincos quando estes estão a ser operados, que foi o meu caso. Quando confrontados com a reclamação afirmam que lamentam mas nada podem fazer. Estamos a falar de um Hospital privado reconhecido, onde se paga bem para se ser bem tratado, não para se ser roubado! Poderia ter escolhido um hospital público, mas não o fiz e estou seriamente arrependida!

  12. valente

    Eu 1956 fui para a Grande C.U.F. a nivel nacional era o melhor, que havia
    os camaradas espatifaram tudo, só quem conheceu é que sabe dar valor ao que foi
    destruído, era um mundo, eram fascistas como dizem os comunas o que é certo
    é que davam trabalho a centenas,mas os chefes camaradas infiltraram na cabeça dos
    que não queriam trabalhar, que bastava trabalhar duas horas para darem os lucros
    aos fascistas,já naquela época tínhamos um posto médico como hoje deve haver poucas empresas que tenham, e um hospital, só a inveja dos camaradas destruíram tudo,enfim …..

  13. José Figueiredo

    Já hoje são 13 de Novembro e parece que os 150 anos do DN encravaram, o que é pena.

  14. José Figueiredo

    Os 150 anos do DN parece que acabaram mesmo. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

  15. kangooroo vadio

    a cuf era grande porque era um monopolio,dado pelo grand Salazar so aos seus amigos,ate um cego mudo e surdo,podia gestar um monopolio,mas tentasses tu ou outro qualquer comecar uma empresa,sem que engaxasses alguns no poder e virias onde ias parar,e mesmo que te dessem authorisacao para comecares uma empresa tinha de ser coisa pequena porque nao podia fazer competicao aos grandes monopolies,e ainda dizem bem da cuf,boa para quem? para os seus donos claro,cambada de fascistas,e olhem os comunistas nao sao melhores….

  16. antonio leal

    Apenas dizem mal deste homem e de outros como ele os que não gostam de trabalhar e não querem disciplina antes de Portugal ter a segurança social já os seus empregados a tinham e mais grandes regalias.
    O 25 Abril foi bom mas oportunistas calões e comunistas não deviam estar nesse seio. Viva o grande empresário Alfredo da Silva e venham muitos como ele.

  17. Hugo ricardo Ramos Oliveira

    Estou neste momento a procura de um avo da minha esposa que trabalhou na cuf por volta de 1935 36 como posso obter essa informacao

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