Mais do que uma palavra a dizer

André Macedo, diretor do DN

André Macedo, diretor do DN

Calhou-me ser o diretor do Diário de Notícias no dia em que o jornal completa 150 anos de vida. Poderia gastar estes parágrafos a elogiar o jornalismo que fizemos desde o primeiro número. Há algumas razões para isso, o leitor encontrará bons exemplos nas páginas seguintes. Reportagens antigas, como as de Eça de Queirós no canal de Suez; ou artigos atuais, como o perfil escrito por Ferreira Fernandes sobre o fundador deste empreendimento, Eduardo Coelho, tipógrafo, empresário, acima de tudo jornalista, o homem que fez que o leitor tivesse nas mãos esta edição alargada. O editorial que ele publicou a 29 de dezembro de 1864, no primeiro número, é tão atual e premente (digo: urgente) que decidimos republicá-lo na primeira página. Eu não o saberia fazer melhor, as palavras são as certas, pesadas, precisas, bem escolhidas, na ordem adequada.

Há 150 anos não havia jornais em Portugal. Circulavam umas quantas folhas, vendidas por cegos às portas das igrejas, que pouco contavam aos leitores sobre o que se passava no país e no mundo. Eram, em regra, instrumentos partidários escritos em tom agressivo e insolente, com muita literatice pelo meio, que batiam com estrondo no peito em defesa de interesses que não eram outra coisa senão ambições particulares, jogos de poder, injúrias, desinformação. Não era jornalismo, era intriga, insídia, e foi isto que o Diário de Notícias se propôs mudar há século e meio.

Não podia ser maior a ambição para um projeto editorial. Um jornal virado para os leitores, pago pelo dinheiro das vendas – foi o DN que inventou os ardinas, o Google dos tempos antigos -, das assinaturas e da publicidade. Não havia lóbi algum a financiar o projeto, a subsidiar assuntos, a condicionar e a sussurrar ideias em nome de sinistras opções só na aparência empresariais. Não havia a intenção de usar as páginas do jornal para ocultar ou limpar ou enganar ou adormecer. Não se reclamava toda a verdade – o bordão que hoje, tantas vezes, tenta disfarçar a manipulação dos factos. O DN propunha-se oferecer “a possível verdade dos acontecimentos”, deixando aos leitores o espaço para formar a sua opinião e fazer as suas escolhas. Muito antes de Portugal se tornar democrático, o Diário de Notícias, em certo sentido, já o ambicionava para o país, já começava a reconhecer essa soberania aos leitores. Só assim poderia, como escreveu na estreia Eduardo Coelho, corresponder “à confiança pública” e ter vida própria.

Na capa de hoje, já o disse, republicamos esse texto seminal, acrescentando, ao lado, alguns nomes (títulos) de jornais contemporâneos. Não é uma provocação – ou não é apenas uma provocação. Nem quisemos estabelecer nenhum tipo de hierarquia. A ideia pretende apenas lembrar este facto singular: foi aqui, debaixo deste frontispício, que foi dado o pontapé de saída para as várias escolhas editoriais que hoje existem ao dispor dos leitores. Poderia ter sido outro jornal a abrir o caminho, aconteceu ter sido este, é adequado reclamá-lo neste dia.

Escrevia eu no início deste texto: poderia gastar este editorial a elogiar o jornalismo que fizemos desde o primeiro número. Mas não será assim, há também o outro lado. O DN teve períodos maus, alguns deles longos, antes e depois do 25 de Abril. Fases em que perdemos o rumo, distanciámo-nos dos leitores e do país, quisemos, talvez, estar sentados à mesa do regime ou ser humildemente, erradamente, convidados para um café. Não foi o único erro que cometemos. A certa altura, como tantos outros jornais, em Portugal e não só, confundimos informação e entretenimento na corrida pelas vendas e cliques. Misturámos as fronteiras que deveriam ser inamovíveis. Julgámos estar no campeonato dos Morangos com Açúcar, embora tantas vezes com personagens reais e consequências devastadoras para as pessoas envolvidas. Hoje estamos no lado contrário, preparados conscientemente para as consequências.

Felizmente o ADN deste diário resistiu e está vivo nos repórteres que aqui hoje trabalham. Não é, porém, um percurso de sentido único. Exige trabalho, vigilância, disponibilidade e, acima de tudo, um compromisso inalienável com os factos – o que implica verificar e reverificar, no limite corrigir e pedir desculpa pelos erros que cometemos. Perdida a capacidade de ouvir, duvidar e investigar, logo de informar, um jornalista já não o é mais.

O objetivo maior do Diário de Notícias, em papel ou na versão digital, é simples, é este: ajudar a criar um campo de jogo equilibrado onde todos os participantes (pessoas, famílias, empresas, igrejas, instituições, partidos) possam encontrar regras de jogo relativamente iguais. Não garantimos que todos possam ganhar, mas queremos ajudar a criar as condições, através da publicação de informação de qualidade, para que isso se torne cada vez mais possível em Portugal. Num momento particularmente frágil do país, quando o medo incentiva tantas decisões erradas, o jornalismo torna-se mais relevante, mas também mais difícil de levar a cabo. Além de admitirmos os erros, quando os cometemos, é preciso ter a coragem para dizer que não, recusar os avanços ilegítimos. Em última análise, é para isso que serve o diretor de um jornal: para defender um património que pertence aos leitores e ao país, sem esquecer os acionistas, sem os quais nada disto pode acontecer. Não somos únicos, mas temos mais do que uma palavra a dizer, somos o Diário de Notícias.

(O DN começou a mudar a 15 de setembro deste ano e, em 2015, o jornal vai continuar a melhorar, no papel, no site, nos telemóveis e nos tablets. Queremos ser cada vez mais o jornal que liga todos os países de língua portuguesa. É essa a nossa vocação.)

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